ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

O Sermão da Montanha (1890), pintura de Carl Heinrich Bloch.

A felicidade é o nosso ofício de pessoas. Nascemos para sermos felizes, marcados pelo selo inconfundível de ânsias de plenitude, que só em Deus se compreendem e realizam. Tende para ela todo o nosso ser de criaturas, como seres humanos e filhos de Deus. Qual o caminho?

Apressa-se o mundo a responder, oferecendo-nos o seu programa de riquezas e prazeres, de honras e poderios. São as bem-aventuranças do mundo, a proposta de felicidade que ele oferece aos seus seguidores, como ofereceu a Cristo nas tentações do deserto. Oculta-se nesta oferta a louca pretensão de felicidade, que deixa o coração frio e escraviza o homem ao domínio absoluto do carnal e do terreno.

Esperemos confiantes na misericórdia do Senhor e seremos por Ele abençoados – disto nos fala a primeira leitura tirada da Profecia de Jeremias 17, 5-8.

No Salmo Responsorial, Salmo 1, 1-2.3.4.6, assinala que seremos felizes se nos afastarmos do mal e cumprirmos sempre a Lei do Senhor.

A primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios 15, 12.16-20, preenche o espaço da segunda leitura, na qual o Apóstolo anima-nos a viver com o Senhor que ressuscitou glorioso e nos há-de ressuscitar, para com Ele vivermos eternamente.

No Evangelho de S. Lucas, 6, 17.20-26, somos convidados a escutar e a saborear o que o Senhor nos vai falar, apontando-nos as bem-aventuranças como caminho de perfeição e caridade.

”Felizes de vós! Alegrai-vos!” – diz o Evangelho. Quem? Os pobres, os que têm fome, os que choram, os rejeitados. É a proposta de Cristo a quem o quiser seguir, o caminho oposto, em contradição flagrante com as bem-aventuranças do mundo e critérios terrenos. Não foram descoberta do homem, mas dom de Deus, abrindo-nos perspectivas de felicidade total. A felicidade é longe, novo Reino que nos seduz e nos conquista. Homem novo, Reino novo, exigem felicidade nova.

Cristo proclama uma nova hierarquia de valores, em que os pobres são ricos e os que choram serão consolados. Programa revolucionário, divina audácia a desafiar pensamentos e corações. Programa assim paradoxal só o entende a nova raça de ‘violentos’, que arriscam tudo pela posse dum Reino. Em vez de bens que o tempo leva, preferem tesouros que nem os ladrões cobiçam nem a traça corrói. A felicidade não consiste em ser pobre, mas nos bens divinos que a pobreza nos traz. Com seu pregão de felicidade, Jesus escolheu definitivamente ser fermento e minoria. Não importa. É destes pobres que o mundo vive e o seu património se enriquece. 

Ficarão de fora os ricos, os fartos, os poderosos, os que riem, excluídos do Reino da felicidade, do banquete da alegria. “Ai de vós” – adverte o Evangelho. Temerária intransigência, divina contestação! Os que buscam a felicidade por falsos caminhos arrancam ‘ais’ do coração de Deus. 

Jesus não condena a riqueza, mas o mau uso dela; não rejeita honras, mas o orgulho que despertam; não amaldiçoa o poder, mas aqueles que dele se servem para cometer injustiças, em desprezo da dignidade do homem.

A felicidade que Cristo nos dá é a grande recompensa prometida. Começa já neste mundo. Não somos alienados, sonhadores de utopias, mas caminhamos para a posse de uma felicidade real, guardada por todo aquele que a busca. “Felizes agora” – remata o Evangelho. Agora virá incompleta por caminhos e horas desconcertantes, precursora da bem-aventurança futura.. Só ao fim se completará, quando a felicidade de Deus inundar os nossos limites e fizer cair todas as barreiras. Na linguagem de Deus tudo muda de nome; os pobres chamam-se ricos e a tristeza é alegria. Acerta agora os termos, não troques os caminhos.

“Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que se há-de revelar em nós” – Epístola de S. Paulo aos Romanos 8,18. 

A Virgem Maria nos ajude a ouvir e a reflectir este Evangelho com mente e coração abertos, a fim de que dê fruto na nossa vida e nos tornemos testemunhas da felicidade que não desilude, a de Deus que nunca desilude.

Diácono António Figueiredo

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