Dia 22, Domingo, Festa do padroeiro do Patriarcado de Lisboa

Por Paulo Corrêa de Brito Fº

“Que rosto é este? Oh vergonha!’ – dizia enfurecido Daciano. O atormentado ri-se e provoca, mais forte que o verdugo”.
Assim o poeta latino cristão Prudêncio descreve, em seu famoso “Peristephanon” ou Hino V, a desafiante posição assumida pelo jovem diácono Vicente diante de seu torturador, o juiz Daciano, grande perseguidor dos cristãos na Espanha.
Esse belo hino constitui uma das fontes históricas mais antigas referentes ao glorioso mártir. Seu conteúdo coincide substancialmente com a Passio (Paixão), documento posterior às atas originais do processo de São Vicente, que não chegaram até nós. Apesar de a Passio ter incorporado algo de legendário, na essência ela merece fé.
Segundo tais fontes, Vicente descendia de ilustre estirpe, sendo seus pais fervorosos cristãos. Embora se acredite ter ele nascido na cidade de Huesca, berço natal de sua mãe, recebeu em Saragoça formação eclesiástica.
Valério, Bispo dessa localidade, nomeou-o arcediácono, o primeiro dos sete diáconos que, segundo a praxe, davam assistência aos Prelados, na Igreja dos primeiros tempos.
Sendo Valério tartamudo, estando assim impossibilitado de pregar e instruir os fiéis, incumbiu Vicente de exercer essa função.
Durante a perseguição do imperador romano Diocleciano, provavelmente em 304, o juiz Daciano passou por Saragoça, fazendo comparecer à sua presença o Bispo Valério e seu arcediácono.
Precisando, porém, viajar para Valência, ordenou o magistrado que ambos fossem conduzidos àquela cidade, a fim de serem interrogados. Para quebrar os seus ânimos, Daciano ordenou que lhes fornecessem pouca alimentação, devendo eles carregar durante a viagem pesadas correntes, as quais pendiam de seus pescoços e mãos.
Em Valência, o cruel juiz, vendo-os saudáveis, perguntou irado aos carcereiros: “Por que lhes destes mais abundante comida e bebida?” Na verdade, sustentados pelo Céu, os dois heróis da Fé, após a terrível viagem, estavam mais fortalecidos do que antes.

Estando o Bispo Valério impossibilitado, devido ao defeito de sua fala, de responder as questões formuladas pelo tirânico magistrado, Vicente tomou a palavra. Como resultado desse primeiro interrogatório, foi o Bispo condenado ao desterro e o jovem arcediácono, submetido à tortura do cavalete, por meio da qual se desconjuntam os membros do corpo, após serem violentamente repuxados.
“O que me dizes, Vicente? Onde já vês teu miserável corpo?” – indagou Daciano durante o suplício.
“Isto é o que justamente desejei; isto foi o objeto de meus mais ferventes desejos” – redargüiu-lhe o arcediácono. E acrescentou, desafiador: “Levanta-te pois, e com todo o teu espírito de malignidade entrega-te à orgia de tua crueldade. E já verás como eu, amparado pela força de Deus, posso mais em sustentar tormentos que tu em infligi-los.”
Começou então Daciano a soltar gritos e enfurecer-se contra os verdugos, moendo-os com pauladas.
E Vicente, irónico, dirigiu-se nessa ocasião ao endemoninhado juiz: “O que dizes, Daciano? Já me estou a vingar dos teus esbirros; tu mesmo me trazes a vingança ao castigá-los.”

O arcediácono foi depois submetido ao suplício do fogo, em um leito incandescente — supremo grau de tortura, explica Prudêncio. Suportou tudo com semblante alegre e ânimo forte.
-“Ai, estamos vencidos!” – exclamou Daciano
O magistrado mandou então lançá-lo num tipo de calabouço estreito, conhecido entre os romanos como Tullianum, assim descrito por Prudêncio, que anos mais tarde o visitou: “Na zona mais baixa da prisão existe um lugar mais negro que as próprias trevas, encerrado e estrangulado pelas estreitas pedras de uma abóbada baixíssima. Ali se esconde a eterna noite, sem que jamais penetre um raio de luz”.

Tanto a Passio quanto Prudêncio relatam esplendoroso milagre ocorrido naquele Tullianum: De repente iluminou-se o calabouço; o chão, coberto de pedras pontiagudas, converteu-se num tapete de flores, enquanto anjos deliciaram os ouvidos de Vicente com suave melodia.
Informado sobre o acontecimento, Daciano deu ordens para que se curassem as chagas do mártir, tendo em vista tentar obter sua apostasia; ou, caso contrário, submetê-lo a novos suplícios.
O carcereiro, já convertido ao Cristianismo, cumpriu com gáudio o ditame de Daciano e, ao mesmo tempo, permitiu a entrada dos cristãos no calabouço. Estes empenharam-se em curar as chagas do mártir, recolhendo, como relíquias panos embebidos em seu sangue.
Em meio a tais demonstrações de carinho e veneração, Vicente exalou seu último suspiro, o que causou redobrada fúria no magistrado perseguidor. Prudêncio, que nasceu cerca de 40 anos depois, sem duvida recolheu e registrou esse episódio com base na tradição oral.

-“Se não pude vencê-lo vivo, ao menos castigá-lo-ei morto” – exclamou Daciano ao tomar conhecimento da morte de seu supliciado.
Ordenou então que o cadáver venerável do mártir fosse atirado ao campo, a fim de ser devorado por feras e aves.
Deus, porém, mais uma vez velou pela honra e glória de seu fiel servo. Um corvo, pousado próximo aos despojos de Vicente, afugentou aves e até mesmo um lobo, que deles se aproximaram.
-“Penso que já nem morto poderei vencê-lo” – lamuriou-se o despótico juiz, quando se inteirou do novo e estupendo milagre. E determinou: “Ao menos, que os mares cubram sua vitória”.
Assim, encerrado o cadáver dentro de um saco, foi conduzido até alto mar e lançado às ondas.
Novamente a Providência Divina não permitiu que aquela preciosa relíquia se perdesse. O cadáver foi levado milagrosamente à praia, e as areias incumbiram-se de proporcionar um túmulo para sepultar o precioso corpo, encobrindo-o para resguardá-lo da cruel perseguição pagã.

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