Faz precisamente hoje 80 anos da estreia de Metrópolis, um filme de culto, realizado em 1927 pelo realizador Fritz Lang, que se traduziu por um enorme fracasso que quase levou à falência os grandes estúdios de cinema alemão que o produziram. Bastante mutilado aquando da sua estreia (foram descobertos mais de 30 minutos de película na Argentina) este clássico filme de ficção científica demonstra uma preocupação crítica com a mecanização da vida industrial nos grandes centros urbanos, questionando a importância do sentimento humano, perdido no processo. O ponto alto do filme e grande mote é, sem dúvida, o final – onde a metáfora “O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!” se concretiza no simbólico aperto de mão mediado por Freder entre Grot, líder dos trabalhores, e Jon Fredersen , o empresário.
Curiosamente, a mensagem do Papa Bento XVI para esta Quaresma de 2010, introduz também esta noção de equilíbrio, mas e curiosamente não a vai buscar, como Lang, ao coração. Antes a encontra no termo hebraico sedaqah, termo que se traduz por justiça, mas não no sentido romano. Isto é, neste último justiça significa dar a cada um o que é seu, mas a palavra hebraica aponta para mais: aceitação da vontade de Deus e equidade em relação ao próximo.
Culturalmente, a equidade ao próximo justifica-se sempre porque é a justa retribuição a Deus, que foi o primeiro a escutar o lamento da miséria do seu Povo, e por isso o convocou, através de muitas maravilhas, ao Sinai para com Ele fazer uma Aliança.
Jesus Cristo radicalizará este sentido e convidará a um Êxodo ainda mais profundo: para entramos na Justiça é necessário sair da ilusão da auto-suficiência, esta sim, origem de toda a Injustiça.
Aqui não basta a mediação da boa vontade, nem algo de tão nobre quanto é a honra e a verdade na relação entre os homens. A essas, no meio dos cenários épicos de Metrópolis, até Lang foi sensível. Aqui é algo mais! Algo que nos obriga a olhar a Sabedoria e a Justiça na Cruz de Jesus Cristo, e essas vão para além do humano, essas exprimem que a fé não é um acto natural no homem nem a Justiça apenas a resolução de um factor externo ao Homem .

