Porta, Porteiro e Pastor

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<<Abri-me as portas da justiça,
entrarei para dar graças ao Senhor,
esta é a porta do Senhor,
os justos entrarão por ela
.>>
(Salmo 117)

Quando Jesus disse de si mesmo: “Eu sou a porta”, terá ressoado aos seus ouvintes toda a linguagem de culto do Templo de Jerusalém.

O desejo mais profundo da devoção judaica era franquear as portas da cidade de Jerusalém, e atravessar as portas do Templo, a fim de participar da comunhão com Deus, de viver na santidade e na justiça, obtendo o perdão dos pecados, a reconciliação e as bênçãos do Senhor do Universo.

Esta entrada na cidade santa e no Templo santo do Senhor era a realização da Aliança. Aquele feita com Abraão, Isaac e Jacob. Continuada na Aliança do Sinai com Moisés e todo o Povo. Renovada com David e a sua descendência para sempre.

O desejo era permanecer fiel à Aliança, a fim de que as bênçãos prometidas pudessem descer sobre o Povo e a Terra. Assim se abririam ‘’as portas do Céu’’, com as bênçãos da chuva e das boas colheitas, da prosperidade e da saúde, da riqueza e da segurança.

Os profetas, porém, repetidamente denunciaram o culto de aparências. Os ritos e devoções praticados no Templo não correspondiam a corações obedientes, nem a vidas conformes aos mandamentos de Deus. “É vão o culto que me prestam”.

Daí que fosse necessário um novo Templo, novas Portas e novos Caminhos para a realização definitiva da Aliança. A destruição das sucessivas edificações do Templo e da própria cidade de Jerusalém, das suas muralhas e portas, anuncia um novo Templo, novas portas e nova cidade, que não poderão depender de uma localização geográfica, nem de limites físicos. Serão antes construídas com “as pedras vivas da Igreja do Senhor”, que são os fiéis habitados pelo Espírito Santo: “o templo de Deus é santo e vós sois esse templo”, dirá São Paulo.

Cristo vem realizar essa Aliança, nova e eterna. Ele é ‘o único justo’, que realiza a justiça do homem, obedecendo à vontade do Pai. Ele é o novo Templo. A sua Igreja é a nova Jerusalém. Ele é a porta e entrega as chaves a Pedro. Em Cristo tudo se realiza tal como tinha sido anunciado, ainda que a maneira de realizar não seja a esperada.

Como escutamos no evangelho de hoje, Jesus afirma de si mesmo: “Eu sou a porta, quem entrar por mim será salvo”. A salvação que se esperava obter ao penetrar as portas do Templo de Jerusalém, é agora oferecida por Jesus. Daí que os seus ouvintes ficassem chocados com o que ouviam, como se diz mais adiante.

Além disso apresenta-se como o porteiro. Aqui assemelha-se ao papel do sacerdote. Era o sacerdote que tinha de avaliar e decidir quem poderia entrar no Templo. Os estrangeiros não entravam. Os que estavam impuros não entravam. Era necessário estar ‘puro segundo a Lei’ para poder entrar no Templo.

Agora Jesus anuncia-se como a Porta e o Porteiro. É Jesus quem decide quem pode entrar e sair. E o critério é o conhecimento: a voz do Pastor que conhece o nome das ovelhas, e o coração das ovelhas que reconhece a voz e obedece à Palavra do seu Pastor. Há uma Palavra! É a Palavra pessoal e viva. Assim é possível aquilo que o povo hebreu desejava: o encontro entre Deus e o seu Povo.

Na segunda leitura, é São Pedro que anima os cristãos a permanecerem unidos “ao Pastor e guarda das vossas almas”. Só este Pastor oferece a santidade que permite entrar no Templo celeste, porque Ele deu a vida em favor das ovelhas: ”pelas suas chagas fomos curados”.

Na primeira leitura, é o mesmo São Pedro que exorta os judeus a reconhecer o Messias Jesus. O Baptismo oferece a graça, a fé permite a salvação, o Espírito Santo confirma a promessa e os dons de Deus. O Bom Pastor apascenta as suas ovelhas na pastagem da Sagrada Escritura e nos dons sacramentais: Baptismo, Crisma, Eucaristia são a realização concreta da salvação, para os que nesta terra seguem o Caminho que é Cristo, ouvem a sua voz, entram e saem pela Porta que é Ele mesmo.

Finalmente o Salmo 22, que rezamos tantas vezes, convida-nos: “O Senhor é meu Pastor, nada me faltará”. É a maturidade da fé. O fiel que se une a Deus e sabe que nada lhe faltará, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, nos vales mais tenebrosos. Assim, pomos os olhos no Templo definitivo que é Cristo Total: Cabeça celeste; e Corpo, peregrino na terra e glorioso nos Céus. Poderemos dizer com o salmo: “habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”!


Padre Diamantino