
Reflexão à Liturgia da Palavra do V Domingo da Quaresma Ano C
Todos somos pecadores levados a Juízo. Como aquela mulher, também em nós se adulterou o amor, convertido em egoísmo e negação. Apanhados em flagrante, só nos salva o amor misericordioso. Estamos reunidos com Jesus, que é a manifestação viva da misericórdia de Deus. De Deus que acolhe os pecadores e a todos quer salvar.
Tal como o filho pródigo saibamos voltar para o nosso Pai Deus, pelo arrependimento. É isso que a santa Igreja nos convida a fazer, de modo especial neste tempo da Quaresma.
A primeira leitura é do Livro da Isaías 43, 16-21. O profeta Isaías anima os israelitas no desterro de Babilónia . O Senhor não os esqueceu e vai reconduzi-los de novo à sua terra.. É um símbolo de conversão de coração que Deus nos pede a todos nós, de modo especial neste tempo santo.
“Vou fazer algo de novo”. Com os restos de tudo vamos edificar o homem novo, à imagem de Jesus Cristo. Esquecendo o que fica para trás, vou lançar-me para a frente (2.ª leitura). A meta é Jesus Cristo ressuscitado. Entrei na prova da vida e logo fui alcançado pelo amor de Jesus Cristo. Amar é correr os dois na mesma direcção; mas Ele chega sempre primeiro. Jesus Cristo em mim tudo ultrapassa. Ele é a verdade que deixa para trás todo o conhecimento, o amor que tudo sacia e supera.
O Salmo Responsorial é todo ele um recordar do regresso do cativeiro. Fala-nos da alegria da conversão de cada um de nós. A Liturgia propõe o salmo 125 (126), 1-6.
A segunda leitura é um texto da Epístola de S. Paulo aos Filipenses 3, 8-14, no qual o Apóstolo nos ensina o amor apaixonado a Jesus, desprezando todas as coisas por Seu amor. Esta perícope constitui uma das mais belas joias dos escritos paulinos. O contexto da passagem é a parte polémica desta carta de cativeiro em que o Apóstolo põe os fiéis de sobreaviso contra os cristãos judaizantes, que queriam impor aos cristãos vindos dos gentios, as práticas da lei judaica.
Jesus Cristo está sempre pronto a perdoar, mesmo os pecados mais graves, mas anima-nos a sair deles. Ao sair do Templo ao nascer o dia, Jesus é confrontado com uma situação na qual lhe é apresentada uma mulher apanhada em flagrante delito de adultério. Segundo a Lei de Moisés, esta mulher deveria ser condenada à morte por apedrejamento. Face à gravidade da questão que é apresentada, Jesus inclina-se para o chão e começou a escrever. Como persistissem em interrogá-l’O, Jesus ergueu-Se e disse-lhes: “Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Só os corações puros podem ver e julgar. Se os teus pensamentos forem armadilhas, os teus juízos são pedradas. Para tocar em nome alheio é preciso ter as mãos muito limpas e o coração muito puro. As intenções do outro são domínio sagrado, que Deus vigia como um tesouro. “O homem vê as aparências, mas Deus penetra o íntimo do coração”. (1.º Livro de Samuel 16,7). Que sei eu dos outros e de mim? Por isso Deus retirou-nos o poder de julgar”Não julgueis … não condeneis”.
Um homem caído não se pisa mas ajudamo-lo a levantar-se. Se o meu irmão pecar não o desprezo nem corro a acusá-lo com zelo farisaico, mas vou ter com ele para o ganhar Só tenho o direito de me julgar a mim mesmo e a mais ninguém. Julgar o outro é o processo desleal de me declarar inocente, ilibado de erros e de culpas. “O Juízo é de Deus” (Deuteronómio 1,7).
Depois de terem, saído todos, “… ficou só Jesus com a mulher … “. O pecado e a misericórdia ficaram frente a frente. Nas contendas das pessoas , nas surpresas da vida só o amor fica e permanece acima das razões, triunfando da justiça. A única realidade é amar. Só o amor fica. E os outros onde estão? Foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos. Legalismo e misericórdia encontraram-se no templo. A misericórdia ficou; os outros não. Só Deus é Lei e a Sua lei é o amor.
Jesus Cristo está diante de nós como única saída. Só Ele tem a resposta que emudece, a razão que convence. É Jesus Cristo que vem denunciar a injustiça dos condenados, encher a solidão dos incompreendidos. Não serei julgado pela Lei, mas pelo Autor dela e de mim Jesus Cristo remiu também a Lei. Agora é o amor que nos acusa e nos absolve. Agora temos por Juiz o amor misericordioso.
Depois de ter perguntado pelos acusadores e como ninguém a acusava de mais nada, Jesus disse à mulher: “Nem Eu te condeno” Vai e não tornes a pecar”. Liberta-te do passado. A partir do que foi, construirás o que há-de ser. Todos os caminhos são buscas da verdade, todos desembocam em Jesus Cristo. Até no mais sinuosos há um, o de rectidão que se prende no coração de Deus. Dá-te ao presente, vive na novidade de Jesus Cristo ressuscitado. Nada rejeites, mas tudo integra e transforma na tua história da salvação.
Como S. Paulo, o cristão não se preza em saber mais, senão a eminente ciência de Jesus Cristo. A Bem-aventurada Virgem Santa Maria, que viveu sem mancha de pecado, nos ensine a crescer no horror ao pecado e em amor ao Sacramento que nos lava e nos dá força para vencê-lo e que tanto nos ajuda no caminho da santidade.


