
Reflexão à Liturgia da Palavra do V Domingo do Tempo Comum ano B
O primeiro capítulo do Evangelho de S. Marcos, apresenta-nos em síntese o programa de vida apostólica de Jesus, repartido entre o trabalho e a oração. Saíndo da Sinagoga cura a sogra de Pedro. De toda a parte O pocuram mas Ele retira-se para orar. Assim Jesus proclama em actos o primado da vida interior, ocupando-se nas coisas do Pai. O ideal que nos aponta está na perfeita união da oração com a vida, tornando-nos contemplativos na acção.
O sofrimento humano é um problema para o qual as pessoas têm procurado uma resposta sem conseguirem encontrá-la. Para os que têm fé, explicar a razão do sofrimento implica também uma dúvida: “Se Deus é infinitamente bom e nosso amigo e ao mesmo tempo omnipotente, porque não acaba com o sofrimento, ao menos os dos inocentes?” A Liturgia da Palavra deste V Domingo do Tempo Comum, Ano B, ilumina este grande problema que nos preocupa.
Job, gravemente doente pela lepra, depois de ter perdido tudo, lamenta o seu sofrimento diante do Senhor. Procuremos o Senhor quando a cruz pesar mais sobre os nossos ombros e seremos confortados. ”Não vive o homem sobre a terra como um soldado?”. Assim desabava Job no início da Primeira leitura, tirada do livro de Job 7, 1-4.6-7. Temos aqui um precioso texto do livro de Job, que não só põe dramaticamente o problema da dor, mas também o descreve de modo patético e com alto valor literário, como este dorido lamanto na leitura.
O Espírito Santo convida-nos a procurar refúgio no Senhor, que sara e conforta os corações dilacerados pelo sofrimeno. Dóceis à inspiração do Senhor façamos deste salmo a nossa oração confiante nas horas difíceis. “Louvai o Senhor que salva os corações atibulados”. Este o refrão do Salmo Responsoial, para o qual cantaremos ou recitaremos o salmo 146 (147) 1-2.3-4.5-6.
S. Paulo rejubila pela missão que lhe foi confiada pelo Senhor, depois da sua conversão, às portas de Damasco. Como ele, chamados a evangelizar, também nós havemos de repetir as suas palavras: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho”. Assim se refere a Segunda leitura, tirada da Primeira Epístola de S. Paulo aos Corintios 9, 16-19. 22-23.
“A febre deixou-a”, refere a passagem evangélica deste Domingo, tirada do Evangelho de S. Marcos 1, 29-39, fazendo aqui alusão à cura da sogra de Pedro. Continua Jesus a sua missão de libertador. Depois de expulsar um demónio, cura a sogra de Pedro. O poder do mal e a dor, retinham a humanidade cativa de enganos e tiranias que esperavam a redenção. “Jesus aproxima-se”. A sua Encarnação foi a divina proximidade que nos apeou pela mão e curou a nossa febre original, herdada do paraíso. Não acaba nunca, mas renasce cada dia.
Ao toque de Jesus tudo se renova. Tocar e ser tocado é a divina experiência, que nos faz sair de nós para Deus e para os outros. “Começou a servi-los”. Foi a melhor forma de agradecer. A sua febre é servir. O serviço dos irmãos é remédio que cura muitos males. Servindo a todos, curamo-nos das velhas chagas do egoísmo e curamos os outros das suas febres de amor e carências de tudo. Quando eu arder em febre de servir, estarei curado.
“Retirou-se para um sítio ermo e aí começou a orar”, descreve o Evangelho. Desde o princípio do seu ministério, Jesus Cristo quer deixar claro que não há missão apostólica sem oração. É na intimidade da oração que se escuta a mensagem. Do trabalho à oração e da oração ao trabalho, num dinamismo constante que fecunda e diviniza. Trabalho e oração, tudo se integra e unifica no amor donde procedem. Não há divisões ou alternativas, porque o primado da vida interior consiste na vida teologal. No serviço de Deus e do próximo, a única distracção é o pecado.
Por isso, oração e acção vivem uma para a outra, como seu complemento e plenitude. A oração leva à acção porque leva à vida. Reza o meu corpo e os meus sentidos, reza a minha alma com todas as suas potências. O meu livro de rezas é o livro da vida, palavra de Deus encarnada, escritura santa, onde a vontade de Deus se inscreve pelo fogo do Espírito.
“E foi por toda a Galileia, pregando nas Sinagogas e expulsando os demónios”. A contemplação e acção são dois aspectos da mesma realidade. Procedem da mesma fonte, cescem juntas para ser uma só vida. O amor teologal nasceu gémeo: amor de Deus e do póximo, contemplação e acção. Contemplação é a fonte; acção é a corrente. Não há rio sem fonte e toda a fonte quer ser rio para ir longe e dar vida e matar sedes. Tudo nasce por amor e tudo nele converge, porque Deus é amor.
O ideal da vida espiritual e apostólica é ser contemplativa na acção. Para isso toda a realidade tem de ser contemplada e toda a contemplação se traduz e frutifica na vida real. Contemplação e missão coexistem no mesmo apelo. Deus chama para enviar. Ir ao mundo de joelhos, voltar de joelhos, é a mensagem fiel, a missão cumprida. O modelo é Jesus Cristo.
A Bem-aventurada Virgem Santa Maria nos ajude a ser abertos à voz do Espírito Santo,que estimula a Igreja a armar cada vez mais a sua tenda no meio das pessoas, para levar a todos a palavra restabelecedora de Jesus Cristo, médico das almas e dos corpos.


