TUDO MUDA

Reflexão à Liturgia da Palavra do XXVIº Domingo do Tempo Comum, Ano C

A nossa civilizalção de conforto e bem estar, deu origem a uma doença perigosa: a insensibilidade. Quando pessoa deixa de ter sensibilidade às dores e sofrimentos dos outros, está em perigo, porque deixa avançar o mal sem o tratar. A dor poderá ser um alarme indicativo de que alguma coisa não está bem e necessita de tratamento. No aspecto moral o perigo não é menor, porque é uma doença progressiva, que tem a sua origem no egoísmo. A Liturgia da Palavra deste 26.º Domingo do Tempo Comum, Ano C, alerta-nos contra esta perigosa doença do espírito.

O rico avarento e o pobre Lázaro sâo a parábola deste mundo feito de mudanças. Vivemos numa sociedade de consumo, de “festas esplêndidas” e de “leitos de marfim”, onde os contrastes e injustiças gritam aos céus. O sentido da parábola é um protesto e um apelo à conversão. O rico e os cinco irmãos não reconheceram o tempo da visita do Senhor. E nós, reconhecemos?

Na primeira leitura aparece-nos a profecia de Amós 6, 1a.4-7. Este profeta, enviado por Deus ao reino da Samaria, admoesta os novos ricos que vivem instalados na vida, oprimindo os pobres. Existem pessoas, que quando começam a ter mais um pouco de dinheiro, se esquecem que o administram em nome de Deus, correm o perigo de cair nas malhas da ganância e do egoísmo.

No Salmo Resonsorial, a liturgia deste Domingo propõe o Salmo 145 (146), 7-10. Neste salmo somos convidados a louvar o Altíssimo, porque “faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos”. 

As recomendações que S. Paulo faz aos seu discípulo Timóteo 6,11-16, surge-nos na segunda leitura. Os ensinamentos de S. Paulo na sua primeira Espístola a Timóteo, são dirigidos também a nós. Manda-nos praticar a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão.

“Havia um homem rico…e um pobre ao seu portão” – escutamos ou lemos na passagem evangélica deste Domingo, tirada do Evangelho de S. Lucas 16, 19-31. É o retrato deste nosso mundo, marcado por estigmas degradantes, que põem em risco os valores intocáveis da pessoa humana. A miséria e a fome são hoje o pecado do mundo, pecado capital e colectivo que nos condena, vergonha do homem e escândalo de Deus. Os séculos futuros vão levantar-se em juízo contra esta geração, povos e governantes, se não soubermos responder ao desafio lacinante daqueles que morrem de fome e violência, vítimas de ódio e interesses egoístas.

“Tinha esplêndidas festas” – narra Jesus no Evangelho. Este homem rico viveu para os seus prazeres e interesses, caricatura de homem, caricatura de homem alienado da vida. Não viu o pobre a seu lado, não lhe incomodou a dor de quem sofria. Por isto foi condenado e não por ter muitos bens. Quando a riqueza chorar os que choram, compra reinos eternos e tesouros escondidos. A riqueza que condena e mata é a auto-suficiência e o desprezo dos outros. Como o rico da parábola, vive a humanidade em pecado, pelo desprezo da dignidade do homem e violação dos direitos da pessoa. É o pecado do mau rico e dos seus cinco irmãos.

“Um pobre chamado Lázaro” .- continua Jesus a a descrever nesta parábola. Os pobres já têm nome; os ricos hão de tê-lo. Lázaro (Eleázar) significa “aquele-que-Deus ajuda”. Deus é a riqueza dos pobres, o tesouro prometido como herança. “Desejava saciar-se com os restos”. Não pedia muito. Os pobres contentam-se com pouco. É o segredo da felicidade e da abundância. E quem se contenta com pouco, sobra-lhe muito. Os corações pobres vivem assim mais libertos e concentram todo o desejo no único necessário. Os pobres são os fortes, que mudam os rumos da história e forçam as portas do Reino. Quando vir Lázaro sentado à minha porta, está perto de mim o Reino dos Céus. Só falta abrir-me e entrar.

“Morreu o pobre … morreu o rico” – narra Jesus no Evangelho. Morreu o pobre e foi levado ao seio de Abraão; morreu o rico e foi metido em tormentos. Tudo mudou agora. Fausto e riqueza deram em ruína e desastre.. Fome e indigência foram enfim saciados. O abismo que se interpõe significa o selo definitivo, que marca situações e destinos eternos. A fé e a caridade são a força que transpõe abismos e junta pobres e ricos no seio do Pai. Só o fogo do juízo abriu os olhos ao rico. A dor é a riqueza do pobre, luz suprema que ilumina as coisa e a vida. Não há maior pobreza do que nunca ter sofrido. 

“Têm Moisés e os profetas. Que os ouçam” – conta Jesus na parábola. As respostas de Deus não são gestos espectaculares. Temos o Evangelho. Deus ouve-se na fé vivida em amor prático. Não faltam hoje profetas. Profeta é o pobre que bate à minha porta, precursor do Reino que há-de vir. Quem quiser ser profeta,, tem de fazer-se pobre entre os pobres. Vamos transpor abismos enquanto temos tempo.

A Virgem Santa Maria deu-nos o exemplo de nos confiarmos inteiramente à providência divina, sem medo nem reservas e como Ela, estarmos atentos às necessidades dos outros, como ela o fez quando partiu apressadamente para as montanhas para ajudar Isabel, sua prima, que estava grávida na sua velhice. 

Diácono António Figueiredo

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