AMOR QUE ESCANDALIZA

Reflexão à Liturgia da Palavra do IV Domingo da Quaresma Ano C

No caminho para a Páscoa celebramos hoje o Domingo da Alegria. Em casa do Pai há festa. Ao passo lento e arrastado do filho que regressa, corre veloz a misericórdia do Pai que o abraça. Quando o arrependimento ainda está longe de se concretizar, o perdão toma-lhe a dianteira. A parábola do filho pródigo é o retrato vivo do amor misericordioso. Não será bem a história do filho pródigo, mas a parábola do Pai misericordioso. A salvação que Deus nos dá começa em misericórdia. Somos todos como que ovelhas perdidas, filhos transviados, sempre em regresso à casa do Pai. Misericórdia é o nosso grito, o pão da nossa fome. De cativeiros faz libertação e de fugas, regressos.

A primeira leitura é proveniente do livro de Josué 5, 9a.10-12. Nesta leitura, a propósito da circuncisão dos israelitas, convida-nos à conversão, princípio de vida nova na terra da felicidade, de liberdade e de paz. Essa vida do homem renovado é um dom de Deus que nos ama e que nos convoca para a felicidade. 

O Salmo Responsorial é o Salmo 33 (34) 2-3.5.6-7. Este salmo vem recordar-nos que quem experimenta a misericórdia divina, pode reconhecer e saborear constantemente como o Senhor é bom!

A segunda leitura é uma passagem da segunda Epístola de S. Paulo aos Coríntios 5, 17-21. Esta leitura convida-nos a acolher a oferta de amor que Deus nos faz através de Jesus. Só reconciliados com Deus e com os irmãos poderemos ser criaturas novas, em quem se manifesta o homem novo.

O Evangelho é de S. Lucas 15, 1-3.11-32. Uma vez mais Jesus fala-nos sobre o Pai e diz-nos que é um Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. E esse amor misericordioso que lá está, sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide voltar.

A conversão começa no amor misericordioso. Foi o amor que nos tocou o coração e fez voltar para Ele. Convertamo-nos ao amor. O amor do Pai aparece-nos como protagonista de toda a nossa história de abandonos e cativeiros. O livro branco da vida, a história das relações de Deus com o homem, resume-se na história dos seus perdões. Maior que os nossos pecados é o amor que nos tem. Onde abundou o pecado superabundou a misericórdia. A maldade humana é limitada, mas a misericórdia de Deus é infinita. Sai o Pai ao encontro do filho ausente e está com ele na busca de caminhos de regresso. Fomes e desilusões são presença misteriosa de Deus, iniciando a marcha. Para o coração do Pai, até cativeiros são graça e o mal se converte em bem.

Deus perdoa sempre, porque ama sempre. Quando deixasse de perdoar, deixaria de amar; e quando deixasse de amar, deixaria de ser Deus. Não são os nossos méritos que O movem a amar. Ama com amor gratuito, ama por é Amor. Por isso o Pai se antecipa a perdoar, antes do filho lhe pedir perdão. Na ordem da graça, Deus chega sempre primeiro. Deus não precisa dos meus méritos para me amar sem lei e sem medida. “Tínhamos de fazer uma festa” – refere o Evangelho. Perdoar traduz a divina impaciência, a divina obrigação que Deus se deve a si mesmo. É o amor que O obriga. Para o coração do Pai, perdoar é uma festa.

O filho mais velho andava no campo. Estava longe da festa dos outros. A misericórdia de Deus é mistério, que a uns converte e a outros escandaliza. Jesus perdoava a publicanos e pecadores, mas os escribas e fariseus murmuravam. Em resposta Jesus contou-lhes a parábola dos dois filhos: o mais novo, publicano e o mais velho fariseu. A lição era para o mais velho. Qual deles o mais pecador?

A parábola da nossa vida tem o pecado dos dois filhos. Tenho medo das minhas fugas apressadas e mais ainda das minhas virtudes presumidas. Se há equívocos no amor que nos transviam, há durezas de coração que nos impedem de voltar. O filho mais novo regressou das suas desilusões, mas o filho fariseu entricheirou-se nas suas observâncias e não se rendeu ao amor, recusando-se a entrar. Ambos pecaram e ambos foram acolhidos pelo Pai. Para ambos, “veio o Pai cá fora”, no mesmo gesto de amor misericordioso. O mais novo Converteu-se. O outro não.

Também nos escandalizamos? Também nós nos recusamos a entrar na alegria dos nossos irmãos, só movidos de interesses e cabritos? Se for assim, o nosso amor não ultrapassa o dos escribas e fariseus. O homem mede-se pela capacidade de perdoar. Só os medíocres não perdoam. Não basta ser observante; é preciso amar. Não sirvamos por interesse e obrigação, mas por amor. A nova ordem que Cristo inaugurou, quer amor e não legalismo.

Em questão de amor, não nos fixemos apenas naquilo que fazemos, mas muito mais no que temos de fazer. As nossas omissões são o grande pecado contra o amor: “Pai, pequei”. A bem-aventurada Virgem Maria seja sempre um exemplo de vida para nós.

Diácono António Figueiredo

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