APRENDER COM RELEVO

Fernanda e Luis, na feitura dos livros em braile
artigo de
Margarida Vicente

Muitos de nós sabemos o que é o braille e como uma pessoa invisual o utiliza. Mas o que muitos de nós não conhecemos é o processo para fazer um livro de leitura e mais importante os livros da escola. Neste artigo vou dar-vos a conhecer um bocadinho deste processo realizado por dois paroquianos nossos.
A Fernanda e o Luís (que são casados há mais de 30 anos e têm duas filhas) trabalham no Ministério da Educação na área do ensino especial, e dedicam os seus dias a fazer livros da escola em braille para que todas as crianças de todo o país tenham acesso ao ensino de forma igual. Estes livros são entregues às crianças de forma totalmente gratuita pelo estado português.
Os livros começam por ser transcritos por professores das várias disciplinas, do alfabeto que nós todos conhecemos para um código de braille que depois surge como os pontinhos em relevo que todos conhecemos. A partir deste momento o Luís e a Fernanda entram em ação. Depois de transcritos os pdf’s são impressos em impressoras específicas que irão fazer o pontos em relevo. Estas máquinas para além de serem muitos grandes, fazem muito barulho e por isso têm no seu interior umas esponjas que servem para abafar o som.

A próxima fase é então “abrir” os livros porque as folhas em que são impressas vêm como se fosse um acordeão e têm de ser separadas para que depois se tornem num livro. Depois de abertos, os livros são colocados em cima de uma longa mesa, como que em fila de espera para a próxima fase, com a folha da requisição onde está o nome do livro, a escola, o nome da criança e ainda o professor que fez a requisição do livro. Mas para conseguirmos ter um livro inteiro temos de imprimir tantos volumes consoante for necessário, por exemplo para um livro de português com 150 páginas podem ser precisos 6,7 ou mais livros em braille porque o relevo, o espaçamento das letras e os vários códigos que indicam a quem está a ler o que vem a seguir (número, letra maiúscula, letra minúscula, pontuação do texto, etc.) ocupam muito mais espaço do que num livro que nós lemos.
Depois de abertos os livros vão ser encadernados onde levam uma capa, uma contracapa, uma etiqueta em braille com tudo o que diz respeito ao livro (título, autor, disciplina e volume), uma etiqueta “normal” e ainda uma última etiqueta com o logotipo do ministério da educação.
Quando existe um novo livro e este é impresso pela primeira vez, passa por uma espécie de controlo de qualidade onde estão 2 a 3 professores invisuais que verificam os espaçamentos e tudo o que eles achem importantes. Assim é possível fazer as alterações necessárias para que quando este livro for impresso para ir para as crianças esteja tudo bem.
No final temos um livro todo branco cheio de pontinhos que para nós parecem estar ali ao calhas, mas para alguns de nós é muito mais do que isso. É novo conhecimento, é uma nova história…
Por fim o livro vai para o correio onde é embalado e enviado para a escola da criança para lhe ser entregue e assim poder estudar e ter uma educação como todas as outras crianças sem qualquer dificuldade visual.
Tudo isto é feito de forma manual (exceto a impressão, a abertura dos livros por vezes tem de ser feita manualmente por alguma avaria que a máquina tenha) todos os dias com muito amor e carinho destas duas pessoas. Muitas vezes são levados à exaustão, mas isso não os para porque a sua missão é levar livros a estas crianças, para que aprendam, leiam um livro de histórias (como os três porquinhos por exemplo e outros livros infantis e juvenis).
Durante a pandemia eles continuaram a trabalhar todos os dias, eram os únicos num edifício enorme e com uma missão também ela enorme. Sem eles muitas crianças não teriam livros para estudar e ler.
Nesta semana rezemos por todos aqueles que levam o ensino às crianças, seja ele de forma direta como os professores ou de forma indireta como o Luís e a Fernanda. Rezemos também por todos os estudantes e para que todas as crianças do mundo tenham acesso a uma educação básica de forma igual.

Margarida Vicente

Publicado por

Padre Diamantino Faustino

Pároco de Linda a Velha

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