Papa Francisco: “erradicar o mal dos abusos”

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO À CÚRIA ROMANA NA APRESENTAÇÃO DE VOTOS NATALÍCIOS

Sala Clementina, Sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

[ Excerto: sobre os abusos ]

(…) Desde há vários anos que a Igreja está seriamente empenhada em erradicar o mal dos abusos, que clama por justiça ao Senhor, a Deus que nunca esquece o sofrimento vivido por muitos menores por causa de clérigos e pessoas consagradas: abusos de poder, abusos de consciência e abusos sexuais.

Pensando neste assunto doloroso, veio-me à mente a figura do rei David – um «ungido do Senhor» (cf. 1 Sam 16, 13; 2 Sam 11-12) –, de cuja linhagem provem o Deus Menino – chamado também o «filho de David». Aquele, não obstante fosse eleito, rei e ungido do Senhor, cometeu um triplo pecado, isto é, três graves abusos juntos: abuso sexual, abuso de poder e abuso de consciência. Três abusos distintos, que, todavia, convergem e se sobrepõem. (…)

Das cintilações da acédia e da luxúria e do abrandamento da vigilância, começa a cadeia diabólica dos pecados graves: adultério, mentira e homicídio. Presumindo que, sendo rei, podia fazer e obter tudo, David procura também enganar ao marido de Betsabé, ao povo, a si próprio e até a Deus. O rei descuida a sua relação com Deus, transgride os mandamentos divinos, fere a integridade moral própria, não se sentindo sequer culpado. O ungido continuava a exercer a sua missão como se nada tivesse acontecido. A única coisa que lhe importava era salvaguardar a sua imagem e aparência. Pois, «quem não se dá conta de cometer faltas graves contra a Lei de Deus, pode deixar-se cair numa espécie de entorpecimento ou sonolência. Como não encontra nada de grave a censurar-se, não adverte aquela tibieza que pouco a pouco se vai apoderando da sua vida espiritual e acaba por ficar corroído e corrompido» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 164). De pecador, acaba por se tornar corrupto.

Hoje, também existem tantos «ungidos do Senhor», homens consagrados, que abusam dos fracos, valendo-se do seu poder moral e de persuasão. Cometem abomínios e continuam a exercer o seu ministério como se nada tivesse acontecido; não temem a Deus nem o seu juízo, mas apenas ser descobertos e desmascarados. Ministros, que dilaceram o corpo da Igreja, causando escândalos e desacreditando a missão salvífica da Igreja e os sacrifícios de muitos dos seus irmãos.

Também hoje, amados irmãos e irmãs, tantos “davides” entram, sem pestanejar, na rede de corrupção, atraiçoam Deus, os seus mandamentos, a própria vocação, a Igreja, o povo de Deus e a confiança dos pequeninos e dos seus familiares. Muitas vezes, por detrás daquela sua desmedida gentileza, impecável atividade e angélica fisionomia, despudoradamente esconde-se um lobo atroz, pronto a devorar as almas inocentes.

Os pecados e crimes das pessoas consagradas matizam-se de cores ainda mais foscas de infidelidade, de vergonha e deformam o rosto da Igreja, minando a sua credibilidade. De facto, a própria Igreja, juntamente com os seus filhos fiéis, é vítima destas infidelidades e destes verdadeiros «crimes de peculato».

Amados irmãos e irmãs!

Fique claro que a Igreja, perante estes abomínios, não poupará esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos. A Igreja não procurará jamais dissimular ou subestimar qualquer um destes casos. É inegável que no passado alguns responsáveis, por irreflexão, incredulidade, falta de preparação, inexperiência – devemos julgar o passado com a hermenêutica de então – ou por superficialidade espiritual e humana, trataram muitos casos sem a devida seriedade e prontidão. Isto nunca mais deve acontecer. Esta é a opção e a decisão de toda a Igreja.

No próximo mês de fevereiro, a Igreja reiterará a sua firme vontade de prosseguir, com toda a sua força, pelo caminho da purificação. A Igreja, valendo-se também da ajuda dos peritos, questionar-se-á como proteger as crianças; como evitar tais calamidades, como tratar e reintegrar as vítimas; como reforçar a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja, mas também do seio da sociedade. Com efeito, se esta calamidade gravíssima chegou a enredar alguns ministros consagrados, perguntamo-nos quão profunda poderá ser ela nas nossas sociedades e nas nossas famílias? Por isso, a Igreja não se limitará a curar-se, mas procurará enfrentar este mal que causa a morte lenta de tantas pessoas a nível moral, psicológico e humano.

Amados irmãos e irmãs!

Ao falar deste flagelo, alguns – dentro da Igreja – arremetem contra certos operadores da comunicação, acusando-os de ignorar que a maioria absoluta dos casos de abusos não é cometida pelos clérigos da Igreja – as estatísticas apontam para mais de 95% – e acusando-os de querer intencionalmente dar uma imagem falsa, como se este mal tivesse atingido apenas a Igreja Católica. Eu, pelo contrário, gostaria de agradecer sinceramente aos operadores dos mass media que foram honestos e objetivos e que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas. Mesmo que se tratasse de um único caso de abuso – que de per si já constitui uma monstruosidade –, a Igreja pede que não seja silenciado mas o tragam objetivamente à luz, porque o maior escândalo nesta matéria é o de encobrir a verdade.

Todos nos lembramos de que David só compreendeu a gravidade do seu pecado, graças ao encontro com o profeta Natã. Hoje precisamos de novos “natãs” que ajudem os inúmeros “davides” a despertarem duma vida hipócrita e perversa. Por favor, ajudemos a Santa Mãe Igreja na sua tarefa difícil que é reconhecer os casos verdadeiros distinguindo-os dos falsos, as acusações das calúnias, os rancores das insinuações, os boatos das difamações. Uma tarefa bastante difícil, já que os verdadeiros culpados sabem esconder-se tão escrupulosamente que muitas esposas, mães e irmãs não conseguem descobri-los nas pessoas mais próximas: maridos, padrinhos, avós, tios, irmãos, vizinhos, professores… As próprias vítimas, bem escolhidas pelos seus predadores, muitas vezes preferem o silêncio e, levadas pelo medo, tornam-se até subservientes à vergonha e ao terror de serem abandonadas.

E a quantos abusam dos menores, gostaria de dizer: convertei-vos, entregai-vos à justiça humana e preparai-vos para a justiça divina, lembrando-vos das palavras de Cristo: «se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos! São inevitáveis, decerto, os escândalos; mas ai do homem por quem vem o escândalo» (Mt 18, 6-7).

(…)

Papa Francisco, 21-12-2018.

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