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SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO

Reflexão à Liturgia da Palavra do V Domingo do Tempo Comum Ano C

O sal da terra e a luz do mundo é Jesus Cristo. Como fermento metido na massa, transforma as realidades humanas e dá-lhes, já neste mundo, o sabor antecipado do real e definitivo. Se cristão é saber Jesus Cristo, saboreá-l’O. Tenho de tomar-lhe o gosto para O saber anunciar. O cristão é um bom apreciador de Jesus Cristo. Como S. Paulo refere na segunda leitura deste Domingo: “Não devia saber mais nada senão Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. 

Na primeira leitura, tirada da Profecia de Isaías 58, 7-10, o profeta anima-nos a repartir o nosso pão com os necessitados e assim nos enchermos com a luz de Deus. Há uma grande afinidade entre este texto com as obras de misericórdia, proclamadas por Jesus, na descrição do juízo final em S. Mateus 25, 31-46.

«Para o homem recto nascerá uma luz no meio das trevas». Este é o refrão do Salmo Responsorial, salmo 111 (112), 4-5.6-7.8a e 9. Este salmo louva também os que praticam a caridade. É isso que dá sentido à vida e enche a alma de alegria.

Na segunda leitura, tirada da 1.ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios 2, 1-5, o Apóstolo lembra o centro da sua pregação: Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado e não uma sabedoria humana.

“Vós sois o sal da terra”- exorta Jesus aos seus discípulos no Evangelho deste Domingo extraído de S. Mateus 5, 13-16. Este texto aparece na continuação da proclamação das bem-aventuranças e constitui como que um corolário delas e a sua aplicação, já eram uma aplicação aos ouvintes da 8.ª bem-aventurança.; na medida em que os discípulos viverem o espírito das bem-aventuranças, eles serão sal da terra e luz do mundo. Através do cristão, Jesus Cristo continua a ser no mundo o sal que preserva e purifica. A nossa identificação com Jesus Cristo purifica-nos o olhar para ver a Deus em todas as coisas, persevera-nos do cansaço na luta e da corrupção do mal. O cristão é a força nova que conserva o mundo e fecunda a história no seu crescimento. Pela fé, mete nas coisas e nos acontecimentos aquela medida de sal, que lhes dá sentido e equilíbrio. O mundo precisa de nós para não se corromper e para não ser transformado em morada de mortos. Os problemas do mundo e das pessoas reclamam do cristão aquele sal de sabedoria, que lhe vem da sua identificação com Jesus Cristo. É a sua missão de leigo na Igreja, comprometido com as realidades terrenas.

O sal significa na Escritura a perpétua duração e a força inviolável dum contrato (Livro dos Números 18;19). O cristão deve ser no mundo a garantia da fidelidade à aliança entre Deus e os homens. No sal dos seus compromissos todo o mundo toma sabor e sobe a Deus a oblação pura e imaculada. O cristão, à maneira do sal, dissolve-se em Jesus Cristo e nos outros. Quando me der aos outros em Jesus Cristo, levarei ao mundo o gosto de viver a exigência de amar. Não haverá em mim caminhos obscuros de falsidade, nem o sensabor de egoísmos, que venham enfastiar o banquete das criaturas. O amor entre os cristãos faz crescer na boca das pessoas o sabor novo de Jesus Cristo: “Vede como eles se amam!”, refere o Livro dos Actos dos Apóstolos.

“Vós sois a luz do mundo”, refere Jesus no Evangelho. A luz que brilha em nós é Jesus Cristo ressuscitado. Pela fé levamos a luz que nos transforma e abre caminho aos outros. Mas luz são obras. Quando a luz da nossa fé resplandecer em boas obras, seremos a luz de Jesus Cristo para a glória do Pai. Ninguém se esconda. Se a lâmpada se acendeu, foi só para iluminar. Andam cegos clamando à espera da nossa luz. Devemos ser rectos como a luz, contagiantes e fecundos como o sol. Luz que não se propaga, quer dizer que se apagou. Para a luz crescer em mim tenho de acendê-la nos outros

Ser luz é amar. As obras do amor são a luz que convence, o calor que fecunda. Só quem ama o seu irmão permanece na luz (1.ª Epístola de S. João 2,10). Ser luz supõe comunhão. A luz tudo envolve e penetra, salta barreiras e vence distâncias. “Se caminhamos na luz estamos em comunhão uns com os outros”. (1.ª Epístola de S. João 1,7). Quando amamos o próximo somos testemunhas da luz e mostramos aos homens que Deus é Amor. Se a minha luz se vier a apagar, há-de reacender-se na partilha e comunhão.-

O discípulo de Jesus é sal da terra e luz do mundo, quando sabe viver a sua fé fora dos espaços restritos, quando contribui para eliminar preconceitos, para eliminar calúnias e para fazer entrar a luz da verdade nas situações corrompidas pela hipocria e pela mentira.

Que a Virgem Santa Maria nos ajude a sermos sal e luz no meio do povo, levando a todos, com a vida e a palavra, a Boa Nova do amor de Deus.

Diácono António Figueiredo

ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

DOMINGO IV DO TEMPO COMUM

A felicidade é o nosso ofício de pessoas. Nascemos para sermos felizes, marcados pelo selo inconfundível de ânsias de plenitude, que só em Deus se compreendem e realizam. Tende para ela todo o nosso ser de criaturas, como seres humanos e filhos de Deus. Qual o caminho?

Apressa-se o mundo a responder, oferecendo-nos o seu programa de riquezas e prazeres, de honras e poderios. São as bem-aventuranças do mundo, a proposta de felicidade que ele oferece aos seus seguidores, como ofereceu a Cristo nas tentações do deserto. Oculta-se nesta oferta a louca pretensão de felicidade, que deixa o coração frio e escraviza o homem ao domínio absoluto do carnal e do terreno.

Esperemos confiantes na misericórdia do Senhor e seremos por Ele abençoados – disto nos fala a primeira leitura tirada da Profecia de Jeremias 17, 5-8.

No Salmo Responsorial, Salmo 1, 1-2.3.4.6, assinala que seremos felizes se nos afastarmos do mal e cumprirmos sempre a Lei do Senhor.

A primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios 15, 12.16-20, preenche o espaço da segunda leitura, na qual o Apóstolo anima-nos a viver com o Senhor que ressuscitou glorioso e nos há-de ressuscitar, para com Ele vivermos eternamente.

No Evangelho de S. Lucas, 6, 17.20-26, somos convidados a escutar e a saborear o que o Senhor nos vai falar, apontando-nos as bem-aventuranças como caminho de perfeição e caridade.

”Felizes de vós! Alegrai-vos!” – diz o Evangelho. Quem? Os pobres, os que têm fome, os que choram, os rejeitados. É a proposta de Cristo a quem o quiser seguir, o caminho oposto, em contradição flagrante com as bem-aventuranças do mundo e critérios terrenos. Não foram descoberta do homem, mas dom de Deus, abrindo-nos perspectivas de felicidade total. A felicidade é longe, novo Reino que nos seduz e nos conquista. Homem novo, Reino novo exigem felicidade nova.

Cristo proclama uma nova hierarquia de valores, em que os pobres são ricos e os que choram serão consolados. Programa revolucionário, divina audácia a desafiar pensamentos e corações. Programa assim paradoxal só o entende a nova raça de violentos, que arriscam tudo pela posse dum Reino. Em vez de bens que o tempo leva, preferem tesouros que nem os ladrões cobiçam nem a traça corrói. A felicidade não consiste em ser pobre, mas nos bens divinos que a pobreza nos traz. Com seu pregão de felicidade, Jesus escolheu definitivamente ser fermento e minoria. Não importa. É destes pobres que o mundo vive e o seu património se enriquece. 

Ficarão de fora os ricos, os fartos, os poderosos, os que riem, excluídos do Reino da felicidade, do banquete da alegria. “Ai de vós” – adverte o Evangelho. Temerária intransigência, divina contestação! Os que buscam a felicidade por falsos caminhos arrancam ais do coração de Deus.. Jesus não condena a riqueza, mas o mau uso dela;não rejeita honras, mas o orgulho que despertam; não amaldiçoa o poder, mas aqueles que dele se servem para cometer injustiças, em desprezo da dignidade do homem.

A felicidade que Cristo nos dá é a grande recompensa prometida. Começa já neste mundo. Não somos alienados, sonhadores de utopias, mas caminhamos para a posse de uma felicidade real, guardada por todo aquele que a busca. “Felizes agora” – remata o Evangelho. Agora virá incompleta por caminhos e horas desconcertantes, precursora da bem-aventurança futura.. Só ao fim se completará, quando a felicidade de Deus inundar os nossos limites e fazer cair todas as barreiras. Na linguagem de Deus tudo muda de nome; os pobres chamam-se ricos e a tristeza é alegria. Acerta agora os termos, não troques os caminhos.

“Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que se há-de revelar em nós” – Epístola de S. Paulo aos Romanos 8,18. A Virgem Maria nos ajude a ouvir e a reflectir este Evangelho com mente e coração abertos, a fim de que dê fruto na nossa vida e nos tornemos testemunhas da felicidade que não desilude, a de Deus que nunca desilude.

Diácono António Figueiredo

O GRÃO DE TRIGO

Reflexão à Liturgia da Palavra da Solenidade de S. Vicente, Diácono e Mártir, Padroeiro Principal do Patriardado de Lisboa.

Neste Domingo, 22 de Janeiro, celebramos a Solenidade de S. Vicente, Diácono e Mártir, Padroeiro Principal do Patriarcado de Lisboa. Por isso, na Diocese de Lisboa a Santa Missa deste Dominmgo é celebrada fazendo memória deste Santo Mártir, por ser o Padroeiro da nossa diocese.

Neste Domingo celebramos também o Domingo da Palavra de Deus. Pelo motu próprio ‹‹Aperuit illis›› – Abriu-lhes o Entendimento – de 30 de Setembro de 2019, o Santo Padre instituiu para toda a Igreja o Domingo da Palavra de Deus, a celebrar todos os anos no terceiro Domingo dio Tempo Comum. Deseja o Santo Padre, que neste Domingo «seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus». 

Para este Domingo, em vez das leituras referentes ao III Domingo do Tempo Comumm, Ano A, o Departamento de Liturgia do Patriarcado de Lisboa propõe as seguintes leituras: 1.ª leitura é tirada do Livro de Ben-Sirá 51, 8-17. Para Salmo Responsorial o salmo 58 (59) e para o Evangelho são propostos dois Evangelhos á escolha: S. João 12, 24-26 ou S. Mateus 10, 17-22.

«Vós livrais aqueles que esperam em Vós e os salvais das mãos dos inimigos», ouvimos a Ben Sirá, na primeira leitura, referindo que Deus livra os que n’Ele esperam e os liberta de mãos inimigas. São três os agentes: Os inimigos que perseguem, Deus que liberta e os que esperam em Deus. Com São Vicente, tudo aconteceu assim. Os inimigos que o condenaram e torturaram, com mãos particularmente atrozes. Deus que o recebeu e libertou da “lei da morte”, ou seja, do esquecimento do que fora e tanto assinalara. E Vicente, que venceu e convenceu, na mais activa das esperanças.
Perante as dificuldades e oposições, por graves e gravíssimas que sejam, o verdadeiro crente comporta-se também assim. Sabe que a fé encontrará resistências, bem duras por vezes. Sabe que não faltarão soberanias que, circunscrevendo o horizonte à dimensão temporal que dominam, não suportam nos governados qualquer ligação que as transcenda e possa criticar. Assim acontece com quem detenha o poder pelo poder e igualmente em nome de ideologias várias que, impondo-se pelo geral, não respeitam a irredutível singularidade de cada um. Prepotência e consciência nunca se deram bem.
No passado e ainda no presente, pôde e pode ser assim no campo imediatamente político, quando não se respeitam as declarações universais de direitos, a liberdade religiosa e a indispensável distinção de poderes, entre quem legisla, quem governa e quem julga. Assim aconteceu com o S. Vicente e assim nos irmanamos hoje com muitas outras pessoas de boa vontade, inclusive de outros credos e até além destes, em base humanitária comum. Em pleno oitavário de oração pela unidade dos cristãos, lembremos que a colaboração em tudo o que respeita ao bem do próximo é uma das alíneas principais do progresso que pretendemos.
Mas não esqueçamos o que disse Ben Sirá: Deus livra os que n’Ele esperam. A consequência é dupla, como sentimento e como acção. Como sentimento, porque esperar em Deus é não desistir nunca d’Aquele em quem acreditamos, mesmo que tudo parecesse contradizê-l’O e ausentá-l’O. Como acção, pois a esperança é performativa e realiza já aquilo que a transporta, pela acção possível e sem omissão alguma.

Dizia Jesus no Evangelho e testemunhava-o São Vicente no martírio: «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto.»Falaria Jesus imediatamente de si, que seria morto e sepultado, fazendo da sua morte a doação total da vida e da sepultura a comunhão plena com a nossa condição comum. Em tudo isso não ficou só ele, porque nos acompanhou absolutamente a nós e nos fez reviver a todos. Assim abriu caminho aos seus discípulos, verdadeiros discípulos, como o foi São Vicente. O nosso padroeiro foi diácono, sacramentalmente servo dos pobres de então. Servo sobretudo no testemunho que deu, de ser fiel até ao fim, na fé que demonstrava, na esperança que o levava e na caridade para com os próprios carrascos, que não conseguiram que os odiasse. Na celebração coerente deste dia, teremos de seguir a Cristo assim também, como o fez Vicente. Dispostos a cair na terra comum da necessidade de todos, sem resistir ao dom de nós próprios, nem nos fecharmos em isolamentos sem saída. Pelo contrário, preenchamos a solidão dos outros com a nossa atenção e companhia; colmatemos tanto vazio e lacuna sociocultural e mediática com a presença solidária e criativa que oferece humanidade; estejamos sempre onde devemos estar, disponíveis e totais, pascalmente oferecidos. São muitas as necessidades e urgências, outras tantas oportunidades de entrega. Foi uma lembrança criativa, uma presença fecunda. A barca em que chegara com os corvos guardiães lembrou-o emblematicamente depois. Boa lembrança e permanente estímulo.Especialmente agora, em que a cidade se está a preparar para a Jornada Mundial da Juventude que irá decorrer no próximo mês de Agosto, com visitantes de toda a parte do mundo. E sem esquecer os que cá estavam e devem continuar a estar, respeitados e dignificados na tradição que transportam. Quando se há de refazer em ecologia integral, conjugando o natural e o edificado, a bem da integralidade psicofísica e espiritual de cada ser humano, pessoal, familiar e socialmente integrado.

Diácono António Figueiredo 

EIS O CORDEIRO DE DEUS

Reflexão à Liturgia da Palavra do Segundo Domingo do Tempo Comum – Ano A

Após a Solenidade da Epifania do Senhor, celebrada no passado Domingo e da festa do Baptismo do Senhor, ocorrida na passada segunda feira, entramos no Tempo Comum. Este tempo prolonga a celebração do mistério pascal. Continuamos a viver e a completar na Igreja e no mundo o mistério da sua encarnação, morte e ressurreição.Vamos agora encarnar, morrer e ressuscitar a fogo lento, baptizados no fogo do Espírito. O Verbo Encarnado vai fazer-se vida em nós. O ciclo litúrgico é a semente a frutificar, Jesus Cristo a crescer em nós até à plenitude. Liturgia é vida. 

Este é o tempo da Igreja peregrina meditar no mistério de Cristo na sua globalidade; tempo de anunciar a Boa Nova para fazer crescer o Reino até à sua plena maturidade, caminhando ao encontro do Senhor, até que Ele venha.

Era o tempo do exílio na Babilónia. Por isso, o profeta fala ao povo de um libertador que será apresentado como o Servo do Senhor. Este servo é Jesus Cristo que vem para reunir o povo, restabalecer as tribos, iluminar as nações e salvar os homens. A primeira leitura é da Profecia de Isaías 49, 3.5-6. Temos aqui parte do segundo poema do Servo de Yahwéh.

No Salmo Responsorial, o salmista canta um hino de louvor, de glória e acção de graças pelas maravilhas operadas pelo Senhor, nomeadamente porque Ele O atendeu e colocando-se disponível para fazeer a sua vontade. «Eu venho Senhor, para fazer a vossa vontade», é o refrão do salmo deste Domingo. Salmo 39 (40) 2 e 4ab, 7-8a.8b-9.10-11ab.

Começamos hoje a ler a Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios. A segunda leitura deste Domingo, é respingada da Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios 1, 1-3. Este trecho limita-se à dedicatória desenvolvida, como era costume naquele tempo. Mas logo aí se podem encontrar grandes afirmações da fé cristã, que depois serão desenvolvidas ao longo da carta. Toda a vida cristã é fruto do chamamento de Deus; foi assim com Paulo, é assim com todos os cristãos. O cabeçalho da epístola é, teològicamente muito rico; seguindo o formulário epistolar greco-romano, começa com o nome do remetente: “Paulo”, credenciado como Apóstolo por vocação divina e o irmão Sóstenes, seu colaborador. 

Na passagem evangélica deste Domingo, tirada do Evangelho segundo S. João 1, 29-34, aparece-nos a figura de S. João Baptista, que apresenta Jesus: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo». Depois de proclamar a necessidade de penitência e conversão, João Baptista aponta para Jesus, concrectamente a sua missão santificadora. Este título revela a pessoa e a missão de Jesus Cristo. O Filho de Deus é o Servo sofredor, Cordeiro pascal, “que tira o pecado do mundo”. Sevo sofredor quer dizer Cordeiro imolado, aquele que carrega sobre si os nossos crimes (Isaías 53,6), suporta os nossos sofrimentos (Isaías 53,4). Desde o começo da sua vida pública, Jesus já é o que há-de ser: Pastor que se fez Cordeiro, Servo que se fez manjar. Assim se torna luz das nações, como se refere Isaías na primeira leitura. “Eu sou a luz do mundo”. No seu rasto luminoso caminham todos os povos. Ao clarão da sua face conhecemos todas as coisas.

“Vi o Espírito Santo descer do Céu”, refere o Evangelho. A sua missão é mostrar Jesus, torná-lo visível até ao fim dos tempos. Para isso desceu ao Jordão e desceu depois sobre a Igreja no Pentecostes, investindo-a e sagrando-a para a mesma missão de Servga e de Cordeiro. É a Igreja que leva hoje a salvação de Jesus Cristo até aos confins da terra, acolhendo em seu seio todos os sobreviventes de Israel, como salienta a primeira leitura. À imagem de Jesus Cristo, a Igreja resplandece como luz das nações e Cordeiro imolado, que reúne em banquete os filhos de Deus dispersos.

Como a Igreja e na Igreja, Jesus Cristo continua a oferecer-se sobre o altar, exercitando o seu ofício libertador. Pela Eucaristia, a Igreja oferece o Cordeiro de Deus, feito vida dos homens, coração dio mundoi E o fogo do Espírito continua sempre a passar, consumando o sacrifício.

“Eu vi e atesto”, refere S. João Baptista no Evangelho. Também o cristão é testemunha do que viu e ouviu, do que tocou na fé e na experiência da vida. Escolhido e consagrado pelo Baptismo, vai ao mundo mostrar a sua eleição, como testemunha de Jesus Cristo, instruído pelo Espírito Santo, que nele foi derramado e nele habita. A missão do cristão é guardar-se do pecado e transmitir a luz. Fomos investidos na missão de sermos santos. Os nossos trabalhos e sofrimentos, unidos a Jesus Cristo, transforman-nos em oblação pura e cordero imolado, para tirar o pecado do mundo.

Mas o testemunho de Jesus Cristo dá-se e vive-se em comunhão. Vams ser santos e ser luz “com todos os que inviocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”, conforme diz a segunda leitura. O nosso viver de cristãos é gesto que O aponta, luz que O anuncia. Não impeçamos a actuação do Espírito Santo

A Virgem Santa Maria nos obtenha a força para dar testemunho de seu Filho Jesus; para O proclamar com alegria, com uma vida livre do mal e uma palavra cheia de fé, maravilhada e grata.

Diácono António Figueiredo

VIMOS A SUA ESTRELA

Reflexão à Liturgia da Palavra da Palavra da Epifania do Senhor

A festa dos Magos prolonga a alegria do mistério do Natal. Revela-se o mistério, dobram-se os joelhos. Cada um de nós abra o coração como presente, trazido de longe, da nossa pobreza, em homenagem ao Rei que nasceu.

O Natal celebra o nascimento do Salvador; a Epifania manifesta o Verbo de Deus em Pessoa, eternamente gerado no seio do Pai. Na noite de Natal os Anjos cantam; na vinda dos Magos, o mundo adora. A ternura dum Menino revela-nos a face de Deus. Os Magos adoram o Verbo feito carne, a força feita fraqueza, o Senhor de majestade na realidade de um homem. O mistério da Epifania também proclama aos homens a realeza de Jesus Cristo. Os braços de Maria são o seu trono real. Aquele que nasceu Rei quer tributo de vassalagem, glória, honra e louvor. Ajoelha e adora.

Já no Antigo Testamento, o povo eleito, instruído pelos profetas vive animado pela fé, esperando o Messias Salvador. O texto da primeira leitura é de Isaías 60,1-6. Nele o autor canta a glória da Jerusalém renovada, figura da «Jerusalém nova descida do Céu». A visão universalista que o poema apresenta corresponde à realidade da Igreja, que é católica, isto é, universal.

No Salmo Responsorial, adoremos o Senhor com os crentes de todos os tempos, pedindo-Lhe que nos ajude a mantermos viva a nossa fé. «Virão adorar-Vos Senhor, todos os povos da terra», é o refrão do salmo 71 (72) 2.7-8.10-11.12-13, que é cantado neste dia.

O Apóstolo S. Paulo, chamado pelo Senhor, confiou-Lhe a sua vida, chamando as outras pesssoas para irem ao seu encontro. “Os gentios recebem a mesma herança” , refere S. Paulo na segunda leitura, tirada da Epístola aos Efésios 3, 2-3a.5-6. A festa da Epifania é a nossa festa, Menino Jesus de toda a gente. As fronteiras do Reino messiânico estendem-se hoje às dimensões do universo. Com os Magos gentios, todo o mundo pagão caminha para Belém. Eles são as primícias daqueles que escutaram o chamamento universal à fé em Jesus Cristo. Com eles, “os gentios recebem a mesma herança, beneficiam da mesma promessa”, refere a segunda leitura. Era o mistério escondido aos judeus, que Deus revelou no chamamento de todos os homens à salvação por Seu Filho Jesus. Agora não há distinções. Todas as diferenças se apagam na unidade de Jesus Cristo.

Os Magos foram ao encontro de Jesus Menino para O adorar e oferecer-Lhe ouro, incenso e mirra. “O Rei Herodes ficou perturbado”, narra a passagem evangélica de S. Mateus 2,1-12 deste Domingo da Epifania. A perturbação do rei e da cidade representa um mundo de privilégios que desaba. O mundo dos instalados em riquezas e poderios não entende a audácia e a iluminada inquietude dos Magos, que deixaram tudo e se decidiram por uma estrela. Sobre as ruínas desse mundo rejeitado, fora dos seus muros, começa a edificar-se a I(greja, a Jerusalém nova, Sacramento universal de salvação. Os Magos não voltaram por Jerusalém, porque o caminho agora é outro. Na verdade, quem se encontra com Jesus, muda radicalmente a sua vida e abandona os caminhos antigos do pecado para viver uma vida nova, baseada nos valores provenientes da pessoa de Jesus Cristo. Se encontrardes Jesus, se tiverdes um encontro espiritual com Jesus, lembremo-nos de voltar aos mesmos lugares de sempre, mas por outro caminho. O Espírito Santo que Jesus nos dá, muda os nossos corações.

“Nós vimos a sua estrela”. A estrela que os Magos viram está agora ali na sua frente. Jesus Cristo é a luz que se levanta por sobre as trevas da noite. A luz de Jesus Cristo raiou em nós pela fé. Fé é o sinal e a estrela que nos guiam pelos caminhos da vida. Deus falou-nos por entre nuvens, manifesta-se por sinais. Só não fala a quem não estiver à escuta. Seguindo a estrela, vamos em busca de Deus,. que nos espera nas encruzilhadas da vida, nas pessoas e nos acontecimentos. Buscar a Deus é deixar-se encontrar.

Muitos viram a estrela, mas poucos a seguiram. Bem cedo começou a ser Jesus Cristo sinal de contradição. Herodes e os doutores da Lei fecharam os olhos à luz. Só os simples e puros de coração verão a Deus. Prostraram-se e ofereceram-se. Ao fim de todas as buscas e perguntas, só nos resta dobrar os joelhos e adorar. De joelhos é que se vê bem. A fé termina no amor. Caminhar na luz exige o dom total. A melhor prova da fé está no dom de nós mesmos.

O mistério da Epifana actualiza em nós estrelas de graça, buscas e encontros. A Celebração Eucarística é epifania de Deus, para onde convergem os caminhos da vida e as ofertas dos homens.

Peçamos à Santíssima Virgem Maria para que possamos ser testemunhas de Jesus Cristo nos lugares em que nos encontramos, com uma vida nova, transformada pelo Seu amor. 

Diácono António Figueiredo

MÃE DE DEUS E MÃE DOS HOMENS

Reflexão à Liturgia da Palavra da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

A celebração da Mãe de Deus na oitava do Natal é a festa mais antiga em louvor de Maria na liturgia romana. São os parabéns da Igreja e da humanidade à Virgem, que deu à luz. Como os Magos e os pastores, vamos também nós adorar o Menino, ao colo de sua Mãe. Ela O dá e O ensina a quem O quiser achar. Não há Menino sem Mãe; não há Jesus sem Maria. Com Jesus queremos viver o ano que hoje começa. Assim será de verdade um Ano Bom.

Na primeira leitura, proveniente do Livro dos Números 6, 22-27, o sumo sacerdote invocava as bênçãos de Deus para os israelitas, desejando-lhes a paz e a protecção de Deus.

O salmo é a oração a pedir as bênçãos de Deus para o seu povo e para todos os povos da terra. Para Salmo Responsorial é proposto o salmo 66 (67) 2-3.5.6 e 8.

Jesus foi enviado à terra para nos tornar filhos de Deus e veio até nós através da Virgem Santa Maria, que é sua Mãe e Mãe de todos nós. Disto nos fala a segunda leitura, respingada da Epístola de S. Paulo aos Gálatas 4, 4-7.

Na leitura evangélica deste Domingo, é-nos proposta a leitura e meditação do Evangelho segundo S. Lucas 2, 16-21. Este Evangelho recorda-nos a visita dos pastores ao presépio, guiados pelos anjos e como José e Maria Lhe puseram o nome de Jesus, indicado pelo Anjo.

Santa Maria, Mãe de Deus! Maria é Mãe de Deus porque é a Mãe de Jesus, o Filho de Deus encarnado. É Mãe de Deus pelo seu sim à palavra, aceitando na fé a mensagem do Anjo. Antes de conceber no seu seio segundo a carne, concebeu em seu coração pela fecundidade da fé. “Faça-se”. E o Verbo de Deus fez-se homem. O sim de Maria é a força que O encarna. A desobediência de Adão trouxe-nos a morte; a obediência de Maria gerou a vida. Maria é a escolhida nos planos de Deus, para salvar o homem pelo homem. Por Maria, a Mulher Nova, Deus fez-se o Homem Novo. Maria é Mãe de Deus porque disse sim. Que seria se dissesse não?

Maria é Mãe dos homens. Gerando a Jesus Cristo, ficou associada à sua missão para restaurar nos homens a vida em graça. Concebeu-nos na Encarnação e deu-nos à luz entre dores no Calvário. Na sua fé, esperança e amor nos gerou e alimenta para a vida sobrenatural. Maria mostra-se Mãe, fazendo-se Medianeira e Advogada entre Deus e os homens e assim participar de maneira priviligiada na única mediação do Redentor.

Maria é Mãe da Igreja. A sua maternidade divina e humana continua hoje na Igreja, porque acolhe no seu seio todos os homens. No dia do Pentecostes estava lá a Mãe do Senhor. Nascia a Igreja para a sua missão salvadora e por isso não podia faltar a Mãe. E agora, onde estiver a Igreja em missão, onde houver um Cristo a nascer, tem de estar lá a Mãe de Deus e dos homens. No mistério da Igreja, Maria é Mãe e é Filha. Gera a Jesus Crista com amor maternal e nasce também com Ele para uma vida nova. Por sua maternidade é Mãe de Jesus Cristo total e membro priviligiado do seu Corpo Místico.

O primeiro dia do ano é também o dia mundial da paz. Príncipe da Paz, chamaram os profetas ao Salvador nascido. Entrando no mundo, lança um pregão de paz, como programa de vida que começa. A paz vem como consequência da fraternidade universal, que Jesus Cristo veio trazer aos homens. Porque somos irmãos e família de Deus, já não fazem sentido guerras e discórdias. Jesus quer dizer libertador. O seu nome abre o livro dos tempos, vai à frente como um desafio, a abrir caminhos de amor e de unidade. E é Maria quem no-l’O traz.

Nesta caminhada de paz e de esperança, Maria abre o cortejo, proclamando o triunfo dos pobres e dos humildes. Com o Menino erguido nos braços, erguido ao alto, aponta aos homens o caminho novo da paz. “Desçamos dos pedestais do nosso orgulho – todos nós temos a tentação do orgulho – e peçamos a bênção à Santa Mãe de Deus, a humilde Mãe de Deus. Ela mostra-nos Jesus: deixemo-nos abençoar, abramos os nossos corações à sua bondade. Assim, o ano que começa será um caminho de esperança e de paz, não com palavras,mas com gestos diários de diálogo, reconciliação e cuidado da criação”. – palavras do Papa Francisco a 1 de Janeiro de 2020.

Diácono António Figueiredo

QUEM É ELE?

Reflexão à Liturgia da Palavra do IV Domingo do Advento – Ano A

A mensagem deste Domingo é o anúncio a José. O Senhor já está perto e faz-se anunciar. Já não são pequenos sinais do Messias, mas é Ele em pessoa que bate à porta. Quem é Ele?

Vivemos hoje um tempo marcado pela instabilidade. Como é importante encontrarmos a tão desejada segurança na vida! Ela é-nos oferecida pela fé n’Aquele que é todo poderoso e nos ama com amor infinito. Feliz de quem n’Ele acredita. É essa fé que nos congrega. Vamos mesmo celebrar, mais uma vez, o nascimento do único Salvador dado por Deus Pai à humanidade. Que a sua Palavra comtribua para o crescimento da nossa fé,a única que nos pode dar segurança na vida.

O trecho do profeta Isaías 7, 10-14, que surge como primeira leitura, anuncia um grande prodígio que Deus fará como sinal de salvação para o povo de Judá: um virgem conceberá um filho, cujo nome será Emanuel, isto é, Deus connosco. Nas encruzilhadas da nossa vida, Maria aparece-nos sempre como sinal de benevolência de Deus para connosco.

No Salmo Responsorial, salmo 23 (24) 1-2.3-4ab.5-6, somos convidados a suplicar a vinda do Senhor com mais intensidade e confiança. É necessário que o coração de cada um de nós se disponha para O receber com todo o amor possível. Ele é o desejado das colinas eternas.

S. Paulo na Epístola aos Romanos 1, 1-7, que nos aparece como segunda leitura, ensina-nos que do nosso encontro com Jesus, deve resultar o testemunho sobre a Sua vida e doutrina. Com que alegria, entusiasmo e sentido de responsabilidade ele o faz. É essa Boa Nova que importa que todos anunciemos a tantos desanimados da vida. “Nascido da descendência de David, segundo a carne”, refere S. Paulo. O Messias prometido é da famíla de David, introduzido nela por José, “esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”. No pensamento eterno de Deus, o nome de José andou sempre associado ao nome de Maria para a realização do seu projecto redentor. O sim de José completa e assume o sim de Maria.

O Menino que vai nascer é Filho de Deus e “filho do homem”. Ao encarnar na natureza humana, o Verbo mostrou-se Filho, para fazer em tudo a vontade do Pai. A encarnação de Jesus Cristo é o vértice da história, divinizando o homem, os acontecimentos e a vida. Jesus Cristo vem salvar o homem todo , espalhar sementes do Verbo para fazer de tudo a nova criação.

Com a mensagem do Anjo, as dúvidas e as angústias de S. José transformaram-se em certezas luminosas e verdadeiras fontes de alegria. “Será chamado Emanuel, que quer dizer Deus connosco”. Assim refere a passagem evangélica deste Domingo, do Evangelho segundo S. Mateus 1, 18-24. No anúncio do verdadeiro Emanuel, lembra a primeira leitura, Jesus é Deus connosco. N’Ele Deus está presente e vive no meio de nós. “Estarei contigo” significa que Deus é a nossa força. Agora a força de Deus já não nos chega em figuras ou promessas, mas apareceu em pessoa. Jesus Cristo, Deus encarnado, vive connosco a mesma história, comprometido e solidário nos nossos caminhos. Já não é apenas o Verbo do Pai, mas tornou-se pela sua encarnação, morte e ressurreição o Senhor dos nossos destinos, partilhando connosco a mesma experiência humana. NoVerbo encarnado Deus se fez comunhão. 

“Porás o nome de Jesus” – disse o Anjo a José. Jesus quer dizer “Deus salva”. Jesus vem para salvar, libertando do pecado toda a criatura. Chamam por Ele todas as dores e todas as lágrimas. Esperam a sua vinda todos os cativos do mal e da morte. Em Jesus Cristo, Verbo humanado, o homem expulso do paraíso verá a Deus, face a face, sem cobrir o rosto e morrer. Porque Deus se fez homem, até as realidades terrenas e sensíveis verão a Deus, agora realizadas no seu destino de criaturas. “Toda a carne verá a salvação de Deus”. (S. Lucas 3,6). 

Nesta altura, José confia totalmente em Deus, obedece às palavras do Anjo e recebe Maria. Foi precisamente esta confiança inabalável em Deus que lhe permitiu aceitar uma situação humanamente difícil e incompreensível em certo sentido. Na fé, José compreende que o Menino gerado no ventre de Maria não é seu filho,mas o Filho de Deus, e ele, José, será o seu guardião, assumindo plenamente a sua paternidade humana. O exemplo deste homem manso e sábio exorta-nos a elevar o olhar e a impeli-lo mais além. Trata-se de recuperar a surpreendente lógica de Deus que longe de pequenos ou grandes cálculos, é feita de abertura a novos horizontes, a Jesus Cristo e à sua Palavra.

A Virgem Maria e o seu casto esposo José nos ajudem a pôr-nos à escuta de Jesus que vem e que pede para ser acolhido nos nossos projectos e nas nossas escolhas.

Diácono António Figueiredo

A ALEGRE ESPERANÇA

Reflexão à Liturgia da Palavra do III Domingo do Advento Ano A

Celebrar o Advento é caminhar na alegria. Vamos ao encontro do Senhor com o coração em festa. A busca já é encontro. Vai o Senhor connosco colaborando na busca, escondido na ânsia de O encontrar. A alegria é o Senhor presente. Aquele que esperamos já está no meio de nós.

«Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos: o Senhor está a chegar!». Com estas palavras, tiradas da Epístola de S. Paulo aos Filipenses, a Igreja Santa, no cântico de entrada deste terceiro Domingo do Advento, faz-nos um veemente apelo à alegria, virtude unida à esperança … O Senhor está a chegar e com Ele nos veem todos os bens. Por isso se chama a este Domingo, na tradição litúrgica, o Domingo da Alegria.

O Profeta Isaías refere-nos, na primeira leitura, capítulo 35, versículos 1-6a.10, neste texto muito belo, a alegria dos tempos messiânicos; com a vinda de Jesus, tudo exulta com brados de alegria. “Tende coragem. Não vos assusteis”. Todo o cristão é percursor de Jesus Cristo, resposta para quem vier. Como João Baptista, temos de ser voz e testemunha. Para isso “é necessário que Ele cresça e eu diminua” (S. João 3,50). Só diminuindo em despojos e prisões, poderás ser o precursor e profeta, denunciando erros e clamando exigências. Todo o homem é transparência de Jesus Cristo, caminho por onde Ele vem. Perante um irmão ou irmã chagado (a) no corpo ou na alma, descobre a Jesus Cristo, que vem julgar a tua paciência e esperança. Cada homem é para o outro o juíz que “está em frente à porta, como refere a segunda leitura.

Toda a nossa esperança deve estar sempre no Senhor Jesus; só Ele nos pode valer. Debaixo dos Céus não foi dado outro nome aos homens pelo qual eles possam ser salvos. Disto nos fala o Salmo Responsorial deste Domingo, Salmo 145 (146) 7.8-9bc-10.

A Epístola de S. Tiago 5, 7-10, escolhida pela liturgia para segunda leitura deste Domingo, o Apóstolo dá-nos o exemplo do agricultor que espera pacientemente o precioso fruto da terra. Sejamos pacientes. O nosso Deus não falha no cumprimento das suas promessas. Os temas desta leitura são a paciência e a vinda do Senhor. Paciência, virtude eminentemente cristã, não significa passividade face às injustiças, mas perseverança na fidelidade ao Senhor. Não é uma indefença estóica perante a dor, a contrariedade e a opressão, mas é sofrer com Jesus Cristo, unindo os sofrimentos à sua Paixão redentora. 

S. João Baptista convida-nos a esperar com paciência e constância, como a lavrador espera o fruto do seu trabalho. Ele personifica toda a esperança dos homens, cingida de renúncias, a preparar caminhos. Renunciar é esperar.

No Evangelho de hoje, tirado de S. Mateus 11,2-11, S. João Baptista é elogiado por Jesus Cristo como o maior entre os filhos de mulher. Ele veio como precursor, para preparar os caminhos do Senhor. “És tu Aquele que há-de vir?” – perguntam os discípulos de S. João Baptista a Jesus. Os discípulos de João têm dificuldade de reconhecer em Jesus o Messias esperado. Um certo perfil de violência traçado pelos profetas oculta-se em gestos de mansidão. Como eles, também nós não entendemos a divina paciência que deixa crescer o joio até à ceifa. A redenção acontece ao ritmo imprevisto de esperas e condescendências. Nas horas de dor e de fracasso, talvez Jesus Cristo seja para mim uma decepção e me venha a tentação de esperar por outro. Perante uma Igreja de pecadores, Jesus Cristo disfarçado, não lhe vires o rosto. É esta a Igreja que nos salva e não há outra.

“Os cegos vêem, os coxos andam” – responde Jesus aos discípulos de João Baptista. Para o mundo que nos uinterroga, o amor é a resposta. Está n’Ele o sinal visível por onde os homens nos hão-de reconhecer. A nós pede exigências; aos outros leva certezas. A salvação que Jesus nos traz é a vitória sobre o mal, a libertação de chagas e prisões. Jesus Cristo é o sacramento de Deus, sinal visível da salvação que o Pai nos dá.

“Que fostes ver no deserto?”, pergunta Jesus no Evangelho. João Baptista é figura de esperança, programa de Advento. A sua vida é a grande profecia em acção. Vestido de penitência, vivendo de renúncias, aponta os caminhos direitos por onde vamos ao encontro do Senhor. Na aspereza da linguagem, na austeridade do viver, denuncia e desmascara as nossas atitudes de transigência e compromisso, que nos impedem de caminhar em justiça e rectidão. Com a sua pobreza mostra o Servo de Javé e profetiza na sua vida, o ideal das bem-aventuranças. Cada palavra sua é seta a apontar caminhos. Não dobra a medos ou interesses, nem anda à mercê de ventos inconstantes.

A figurade S. João Baptista é a lógica do cristão. Para o irmão que se aproxima de ti, tu és sempre aquele que há-de vir. Não o deixes esperar por outro. Que Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos, causa da nossa alegria, nos consiga de Deus uma maior vibração apostólica, para darmos testemunho de Jesus Cristo e da sua Boa Nova da Salvação.

Diácono António Figueiredo