A FORÇA DO ESPÍRITO

Comentário à Liturgia da Palavra do VI Domingo da Páscoa, ano C

Deus nunca se despede; é sempre Emanuel, Deus connosco. Volta sempre outra vez. Por isso, ao partir para o Pai, Jesus promete ficar. Estabelece em nós a sua morada eleita e faz da Igreja a sua cidade santa. Nós somos as pedras vivas em construção. O cristão é tabernáculo sagrado, onde Cristo mora, “tenda do testemunho”, aberta a quem O procurar.

Jesus Cristo vive na Igreja. Habita nela, casa de Deus, divina construção que o Pai lhe confiou. Fundada n’Ele e no testemunho dos Apóstolos, nela se edifica a nova Jesuralém, onde a Santíssima Trindade desceu e permanece. A glória de Deus é o sol que a ilumina e o Cordeiro é a sua luz.

A primeira leitura (Actos dos Apóstolos 15, 1-2.22-29) fala-nos de uma verdadeia atmosfera sinodal. Na fidelidade aos Apóstolos e ao Espírito de Deus foi possível encontrar atmosfera/ambiente ao estilo de Jesus. 

Quando vivemos o amor de Deus, resplandece em nós a luz do seu rosto, constroem-se caminhos de amor e louvor que chegam aos confins da terra (do Salmo Responsorial – Salmo 66 (67), 2.35.6.8).

Que bela é a cidade que desce do Céu! Todos os que a construiram nesta terra exultam na sua plena beleza e santidade. A segunda leitura deste Domingo é tirada do Livro do Apocalipse 21, 10-14.22-23. 

Acolher a Palavra de Deus torna-nos Sua morada. Morada bela que torna a nossa vida uma presença de Jesus. Disto nos dá conta o Evangelho de S. João, capítulo 14, versículos 23-29. 

Quando amarmos os outros em Jesus Cristo, Ele encarna outra vez e habitará entre nós. “Se alguém me ama, faremos nele a nossa morada” – diz Jesus no Evangelho. Amor exige presença, pede vida e comunhão. Não conhece distâncias nem suporta ausências, porque longe da vista, longe do coração. È assim o amor entre as pessoas e é assim também o amor de Deus. Porque nos ama, mete-se-nos dentro, saltando muros e portas, eliminando ausências. Faz de nós sua morada permanente, lar fecundo e ardente, onde o amor nos põe a mesa e nos sacia. “Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” – refere S. João na sua primeira Epístola, 4,16. Para amar temos de cumprir os mandamentos, guardar as palavras de Jesus Cristo. Pelas obras do amor, a Palavra faz-se vida. A fidelidade à Palavra proclama o amor a Jesus Cristo e aos irmãos, torna viva a sua presença em nós e nos outros. 

“O Espírito Santo Paráclito há-de ensinar-vos tudo” – avisa Jesus no Evangelho. Na verdade, este mesmo Espírito traz como missão pessoal formar Cristo em nós, revelando-nos o seu mistério. Ensina-nos a rezar ao Pai e reza em nossos corações com as mesmas palavras e sentimentos do Filho. Desperta em nós a oração de Jesus, para que eu reze n’Ele e Ele em mim. Se temos a mesma vida, temos a mesma oração. Continua no mundo a memória viva da Boa Nova. O Espírito Santo é a força indomável que vence o mundo. Assiste a Igreja como divino Paráclito para falar em nome dela. Advogado e defensor das nossas questões e demandas. Quando a tempestade se levanta na Igreja e se pretendede encadear o Evangelho em costumes e velhas leis, o Espírito Santo decide pela liberdade que Cristo nos conquistou. (1.ª leitura).

A presença de Deus manifesta-se e dá sinais. No Evangelho Jesus exorta: “Não se perturbe o vosso coração”. Um coração possuído de Deus vive na paz e na alegria. A Jerusalém nova, Igreja santa, quer dizer “cidade de paz”. É este o clima favorável que assinala e faz crescer a comundade dos ressuscitados. A alegria do Cristão nasce da certeza de que vamos com Jesus Cristo para o Pai. Não queremos a paz que o mundo dá, feita de transigências e armistícios. A paz de Cristo vem na violência dos mansos e dos humildes, a revolução que domina a terra. 

A paz que Cristo nos dá é o dom do seu Espírito que habita em nós. Ensinados por Ele e fortalecidos por sua graça, viveremos alegres e confiantes no meio de noites e tempestades.

Hoje o Senhor convida-nos a abrir o coração ao dom do Espírito Santo, para que nos guie pelas sendas da história. Ele educa-nos, dia após dia, para a lógica do Evangelho, a lógica do amor acolhedor, «ensinando-nos todas as coisas» e «recordando-nos tudo o que o Senhor nos disse». Maria, que neste mês de Maio veneramos e oramos com devoção especial como nossa Mãe celeste, proteja sempre a humanidade inteira. Ela, que com fé humilde e corajosa, cooperou plenamente com o Espírito Santo para a Encarnação do Filho de Deus, nos ajude também a nós a deixar-nos educar e guiar pelo Paráclito, a fim de podermos acolher a Palavra de Deus e de a testemunhar com a nossa vida.

Diácono António Figueiredo

NOVO CÉU, NOVA TERRA

Reflexão à Liturgia da Palavra do Domingo V da Páscoa, Ano C

Páscoa é a grande novidade que transforma o mundo. Desde que Jesus Cristo ressuscitou, há em tudo o que existe e acontece, um fermento de vida nova, um sabor diferente. Agora tudo é novo, tudo nos sabe a Cristo.

Na primeira leitura extraída do Livro dos Actos dos Apóstolos 14, 21b-27, Paulo e Barnabé anunciam Jesus aos povos que evangelizam. Hoje somos nós os seus continuadores para animarmos os cristãos, cumprindo sempre a Sua vontade.

Deus é nosso Pai. Quer o nosso bem. Agradeçamos tão grande dom, louvando-O agora e para sempre no Salmo 144, 8-13a.

A segunda leitura é do Livro do Apocalipse 21, 1-5a. Com o Apóstolo João queremos ver a Igreja una e santa neste mundo, para depois vivermos eternamente felizes no Céu.

Jesus deu-nos um mandamento novo, o mandamento do amor. Amemos o Senhor com todo o nosso coração e amemo-nos uns aos outros. Com o nosso testemunho o mundo alcançará a paz e a felicidade. O Evangelho é uma passagem de S. João 13, 31-33a.34-35. Amar é o mandamento novo que renova todas as coisas. A grande novidade que transforma o mundo é amar os outros como Cristo nos amou. O mandamento do amor contém o seu testamento e perpétuo memorial. O amor fraterno é sacramento de Cristo, sua presença viva e passagem entre os homens. Sob as espécies e aparências dum homem qualquer, descobre o amor um Cristo ressuscitado. Amar é ser novo. 

Se temos a mesma vida, temos a mesma oração. Continua no mundo a memória viva da Boa Nova. O Espírito Santo é a força indomável que vence o mundo. Assiste à Igreja como divino Paráclito, para falar em nome dela. Advogado e defensor das nossas questões e demandas. Quando a tempestade se levanta na Igreja e se pretende encadear o Evangelho em costumes e velhas leis, o Espírito Santo decide pela liberdade, que Cristo nos conquistou. (1.ª leitura).

“O que antes havia, passou” – 2.ª leitura. O túmulo glorioso de Cristo foi o berço da nova criação. Gerado em Páscoa, o mundo caminha agora para a plenitude da idade de Cristo ressuscitado. A fé é o germe fecundo da vida nova: dinamismo e crescimento, que nos leva e estimula para a Páscoa definitiva. Mas para entrar no mundo novo, temos de passar “através de muitas tribulações” (1.ª leitura) em Páscoa permanente. Até lá, toda a criatura sofre connosco dores de parto, na expectativa da hora da exaltação. “Então já não haverá lágrimas nem lutos, nem clamor nem fadiga” – refere a segunda leitura.

“Amai-vos uns aos outros” – salienta o Evangelho. Amar é o nosso ofício e condição essencial, o rosto de Deus aparecendo entre os homens. Deus é amor e o homem também. Fomos criados à sua imagem e semelhança e não podemos renegar das origens, fugir do plano traçado. Quando não amar, deixarei de ser eu, deixarei de ser homem. Só amando como Deus ama nos pareceremos com Ele. A nossa semelhança faz-se no amor. Cristo veio ao mundo para restaurar o amor perdido.

A novidade do mandamento novo consiste em amar à maneira de Cristo. “Como Eu vos amei” – refere Jesus no Evangelho. Antes o homem era a medida de todas as coisas: “amar o próximo como a nós mesmos”. Agora a perfeita medida do amor é Jesus Cristo. Daí, a grandeza e a dificuldade. Cristo amou-nos, encarnando, perdoando, morrendo. Assim, só tenho é de amar. O meu amor aos outros leva-me a aceitar cada um como ele é, assumir a sua história, comungar os seus anseios. Não há amor sem perdão. Amar como Jesus Cristo ama é perdoar como Ele perdoa. Mas é morrendo todos os dias no meu orgulho e egoísmo que poderei dar aos outros a maior prova de amor. Amar é Páscoa permanente, pão repartido por todos, em “passagem” constante da morte à vida. Amar é morrer.

O amor fraterno está no mundo como sinal. É o vínculo que nos une para que o mundo creia. Por Ele conhecerão os homens que somos discípulos de Jesus Cristo. Não temos outro sinal, outro hábito que nos distinga. Quando nos amarmos uns aos outros, Cristo será glorificado e Deus glorificado n’Ele. Onde houver amor aí está Jesus Cristo. A comunidade do amor é a glória de Deus, a sua morada entre os homens.

O mundo é a Jerusalém nova descida do céu na manhã de Páscoa. O céu começa aqui e agora na nova terra, inaugurado na fé e na esperança. A hora da exaltação já chegou. Cada acontecimento faz parte da glória a que o Pai nos destina e caminha para o triunfo final. O cristão é aquele que acredita num mundo novo. Tudo acontece em glória; nada deste mundo me é estranho. O amor de Jesus em nós cria pontes, ensina novos caminhos, activa o dinamismo da fraternidade. Com a sua intercessão maternal, a Virgem Maria nos ajude a acolher de seu Filho Jesus o dom do seu mandamento e do Espírito Santo a força de o praticar na vida de todos os dias.

Diácono António Figueiredo

“Jamais hão-de perecer.”

Meditando a Liturgia da Palavra do IV Domingo da Páscoa 

Cristo ressuscitado é o Bom Pastor prometido. Andava a humanidade inteira como ovelhas sem pastor. Por sua morte e ressurreição, Jesus constituiu-se pastor e guarda das nossas almas, juntando na unidade os filhos de Deus dispersos. 

Este IV Domingo da Páscoa, é tradicionalmente chamado Domingo do Bom Pastor, porque o Evangelho fala-nos dele. 

Celebramos o Dia Mundial de Oração pelas vocações. Pedimos vocações para todos os ministérios da Igreja, mas de um modo especial imploramos a graça de a Igreja poder dispor de muitos e santos sacerdotes para servirem o povo de Deus. 

Na primeira leitura deste tempo pascal, escutamos e meditamos uma passagem do Livro dos Actos dos Apóstolos. Para este Domingo foi extraída do capítulo 13, versículos 14.43-52. Hoje é narrada a grande actividade evangélica de São Paulo e São Barnabé em Antioquia de Pisídia. Dão-nos o exemplo de não desanimarem perante as dificuldades encontradas. Foi e é ainda hoje no meio de sacrifícios e perseguições, que a Igreja é implantada em todo o mundo.

O Salmo Responsorial é o Salmo 99 (100) 2.4.5.6.11.13b. De novo o Espírito Santo convida-nos a entoar um cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que operou na Páscoa.

Na segunda leitura, tirada do Livro do Apocalipse 7, 9.14b-17, S. João dá-nos um vislumbre do Céu: uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, revestidos de túnicas brancas e de palmas na mão.

A passagem evangélica é de S. João 10, 27-30. Prometemos-lhe a nossa fidelidade e segui-l’O pelos caminhos da vida.

“O Cordeiro será o seu Pastor” – refere a segunda leitura. O Cordeiro imolado fez-se Pastor. À sua volta se reúne a comunidade pascal, rerspondendo à Palavra, comungando a Vida. Na Igreja, redil de Cristo, cabem todas as pessoas. Jesus Cristo é o único Pastor do único rebanho e não há outra voz, outro caminho. Toda a humanidade lhe pertence, resgatada no seu sangue redentor. Cristo pagou por ela o preço da sua vida. O seu coração de Pastor e de Cordeiro, fez-se redil de todas as dores e buscas desgarradas. Em paga do seu despojo e doação, o Pai deu-lhe como prémio e senhorio do homem e do universo. A humanidade resgatada é o dom maior de tudo, recebido do Pai. Cada pessoa é o tudo, onde Jesus Cristo se extasia e se oferece..

“Eu conheço-as e elas seguem-me” – afirma Jesus no Evangelho. Ser ovelha de Jesus Cristo é escutar a sua voz. Tem um acento que só eu conheço, exigências que só eu entendo. Cristo conhece a minha história e aceita-me tal como sou. Conhecer a Cristo é vivê-lo e seguir os seus passos para onde quer que vá. Vamos pelos prados da fé, obedientes à Palavra de Alguém que nos chamou pelo nome. Virão mercenários e salteadores, mas “ninguém há-de arrebatar da sua mão” a Igreja que o Pai lhe deu. O “mistério da iniquidade” não há-de vencê-la. “Jamais hão-de perecer”.

“Dou-lhes a vida eterna” – assegura Jesus no Evangelho. A fé é o início e o fundamento da vida nova. Sequindo a voz de Jesus Cristo, somos introduzidos na vida imutável, onde já vivemos agora na fé e na esperança. A vida eterna começa hoje. Está aberta a porta, porque o Pastor se fez Cordeiro, dando-nos a própria vida. Para entrar na vida eterna temos de passar “a grande tribulação”, feita de lutas e contradições, até que as nossas vidas sejam branqueadas no sangue do Cordeiro (2.ª leitura). Quando dermos a vida em testemunho do amor, começaremos então a viver a vida eterna. É em Cristo que purificamos o olhar para ver a Deus e termos acesso ao Pai, vivendo em comunhão com Ele.

“Estabeleci-te para seres a luz das nações” – salienta a primeira leitura. Bom Pastor é também a Igreja, Cristo visível, sacramento divino da sua presença real. “Quem vos ouve, a mim ouve”. Foi investida na missão de ser luz nas trevas e iluminar toda a pessoa que vem a este mundo. Pela voz dos seus pastores, a Igreja torna presente a Jesus Cristo ressuscitado. É a sua missão. “Cristo ressuscitou e apareceu a Simão” – São Lucas 24,34. Leva-nos “às nascentes das águas da vida” (2.ª leitura), às águas do repouso”, repartindo por todos “as ervas frescas”, o alimento da Palavra e do Pão.

Também eu sou pastor, minha régia missão, recebida no Baptismo. Todo o cristão é responsável e guarda de seus irmãos. Há corações tresmalhados à escuta da minha voz. Quando eu der a minha vida, abrem-se no mundo caminhos e certezas de vida eterna.

Dirijamo-nos agora a Maria, Mãe de Jesus Cristo, Bom Pastor. Ela que respondeu prontamente à chamada de Deus, ajude em particular a quantos são chamados ao sacerdócio e à vida consagrada a aceitar com alegria e disponibilidade o convite de Nosso Senhor Jesus Cristo a serem os seus colaboradores mais directos no anúncio do Evangelho e no serviço do Reino de Deus nesta nossa época.

Diácono António Figueiredo

“JAMAIS HÁ-DE PERECER”.

Meditando a Liturgia da Palavra do IV Domingo da Páscoa 

Cristo ressuscitado é o Bom Pastor prometido. Andava a humanidade inteira como ovelhas sem pastor. Por sua morte e ressurreição, Jesus constituiu-se pastor e guarda das nossas almas, juntando na unidade os filhos de Deus dispersos. 

Este IV Domingo da Páscoa, é tradicionalmente chamado Domingo do Bom Pastor, porque o Evangelho fala-nos dele. 

Celebramos o Dia Mundial de Oração pelas vocações. Pedimos vocações para todos os ministérios da Igreja, mas de um modo especial imploramos a graça de a Igreja poder dispor de muitos e santos sacerdotes para servirem o povo de Deus. 

Na primeira leitura deste tempo pascal, escutamos e meditamos uma passagem do Livro dos Actos dos Apóstolos. Para este Domingo foi extraída do capítulo 13, versículos 14.43-52. Hoje é narrada a grande actividade evangélica de São Paulo e São Barnabé em Antioquia de Pisídia. Dão-nos o exemplo de não desanimarem perante as dificuldades encontradas. Foi e é ainda hoje no meio de sacrifícios e perseguições, que a Igreja é implantada em todo o mundo.

O Salmo Responsorial é o Salmo 99 (100) 2.4.5.6.11.13b. De novo o Espírito Santo convida-nos a entoar um cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que operou na Páscoa.

Na segunda leitura, tirada do Livro do Apocalipse 7, 9.14b-17, S. João dá-nos um vislumbre do Céu: uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, revestidos de túnicas brancas e de palmas na mão.

A passagem evangélica é de S. João 10, 27-30. Prometemos-lhe a nossa fidelidade e segui-l’O pelos caminhos da vida.

“O Cordeiro será o seu Pastor” – refere a segunda leitura. O Cordeiro imolado fez-se Pastor. À sua volta se reúne a comunidade pascal, rerspondendo à Palavra, comungando a Vida. Na Igreja, redil de Cristo, cabem todas as pessoas. Jesus Cristo é o único Pastor do único rebanho e não há outra voz, outro caminho. Toda a humanidade lhe pertence, resgatada no seu sangue redentor. Cristo pagou por ela o preço da sua vida. O seu coração de Pastor e de Cordeiro, fez-se redil de todas as dores e buscas desgarradas. Em paga do seu despojo e doação, o Pai deu-lhe como prémio e senhorio do homem e do universo. A humanidade resgatada é o dom maior de tudo, recebido do Pai. Cada pessoa é o tudo, onde Jesus Cristo se extasia e se oferece..

“Eu conheço-as e elas seguem-me” – afirma Jesus no Evangelho. Ser ovelha de Jesus Cristo é escutar a sua voz. Tem um acento que só eu conheço, exigências que só eu entendo. Cristo conhece a minha história e aceita-me tal como sou. Conhecer a Cristo é vivê-lo e seguir os seus passos para onde quer que vá. Vamos pelos prados da fé, obedientes à Palavra de Alguém que nos chamou pelo nome. Virão mercenários e salteadores, mas “ninguém há-de arrebatar da sua mão” a Igreja que o Pai lhe deu. O “mistério da iniquidade” não há-de vencê-la. “Jamais hão-de perecer”.

“Dou-lhes a vida eterna” – assegura Jesus no Evangelho. A fé é o início e o fundamento da vida nova. Sequindo a voz de Jesus Cristo, somos introduzidos na vida imutável, onde já vivemos agora na fé e na esperança. A vida eterna começa hoje. Está aberta a porta, porque o Pastor se fez Cordeiro, dando-nos a própria vida. Para entrar na vida eterna temos de passar “a grande tribulação”, feita de lutas e contradições, até que as nossas vidas sejam branqueadas no sangue do Cordeiro (2.ª leitura). Quando dermos a vida em testemunho do amor, começaremos então a viver a vida eterna. É em Cristo que purificamos o olhar para ver a Deus e termos acesso ao Pai, vivendo em comunhão com Ele.

“Estabeleci-te para seres a luz das nações” – salienta a primeira leitura. Bom Pastor é também a Igreja, Cristo visível, sacramento divino da sua presença real. “Quem vos ouve, a mim ouve”. Foi investida na missão de ser luz nas trevas e iluminar toda a pessoa que vem a este mundo. Pela voz dos seus pastores, a Igreja torna presente a Jesus Cristo ressuscitado. É a sua missão. “Cristo ressuscitou e apareceu a Simão” – São Lucas 24,34. Leva-nos “às nascentes das águas da vida” (2.ª leitura), às águas do repouso”, repartindo por todos “as ervas frescas”, o alimento da Palavra e do Pão.

Também eu sou pastor, minha régia missão, recebida no Baptismo. Todo o cristão é responsável e guarda de seus irmãos. Há corações tresmalhados à escuta da minha voz. Quando eu der a minha vida, abrem-se no mundo caminhos e certezas de vida eterna.

Dirijamo-nos agora a Maria, Mãe de Jesus Cristo, Bom Pastor. Ela que respondeu prontamente à chamada de Deus, ajude em particular a quantos são chamados ao sacerdócio e à vida consagrada a aceitar com alegria e disponibilidade o convite de Nosso Senhor Jesus Cristo a serem os seus colaboradores mais directos no anúncio do Evangelho e no serviço do Reino de Deus nesta nossa época.

Diácono António Figueiredo

“É O SENHOR!”

Reflexão à Liturgia da Palavra do III Domingo da Páscoa – ano C

A Liturgia deste Domingo menciona três aparições de Cristo ressuscitado. Aparece aos discípulos nas margens do mar; aparece a João na glória do Cordeiro e aparece no Sinédrio pelo testemunho dos Apóstolos. Três rostos que se identificam na mesma presença de Cristo entre os homens. 

Pela sua ressurreição o Cordeiro imolado senta-se no trono com o Pai (2.ª leitura). Cristo glorioso é o Senhor incontestado da história, o primogénito da nova criação.

No Tempo Pascal a primeira leitura é sempre retirada do Livro dos Actos dos Apóstolos. Para este Domingo a passagem proposta é do capítulo 5, versículos 27b-32.40b-41. Aqui é-nos mostrada a coragem e determinação dos Apóstolos quando enfrentaram as primeiras perseguições.

O Salmo Responsorial 29 (30) 2.4-6.11-12a.13b. Este salmo anima-nos a louvar o Senhor que converte as nossas lágrimas em júbilo.

A segunda leitura é uma passagem do Livro do Apocalipse 5, 11-14. S. João nesta visão do Apocalipse, mostra-nos a visão inumerável dos Anjos no Céu aclamando a Jesus, que morreu e ressuscitou para nos salvar. 

O Evangelho é de São João 21, 1-19. Esta passagem evangélica narra-nos a terceira aparição de Jesus ressuscitado aos Apóstolos, desta vez à beira do mar da Galileia. Jesus confirma Pedro, que O havia negado quinze dias antes, como pastor de toda a Sua Igreja.

O testemunho dos Apóstolos e da Igreja leva aos homens de sempre a aparição do Senhor. “Nós somos testemunhas disso” – salienta a primeira leitura. Cristo é o Libertador, que vem abrir prisões, soltar cadeias. Quando se levantar contra a Igreja o “mistério da iniquidade”, aparece nela mais viva a presença e o testemunho de Cristo ressuscitado. O cristão é a pessoa livre, que não teme açoites nem ameaças, e para quem o Espírito Santo é Lei. A lei do Espírito lhe dita a sua opção radical, a objecção de consciência, que ilumina e prevalece. Prisões e cadeias são a violência dos fracos. Mas a violência dos fortes, que convence e triunfa, é a audácia incontida da fé e do amor.

A ressurreição continua. “Jesus apresentou-se na margem” – diz o Evangelho. Acontece-nos na vida como à beira mar. Por isso, não esperemos a aparição só nas horas de ponta que a vida nos traz. O Senhor vem na simplicidade e na monotonia daquilo que acontece sempre. Cristo é a surpresa de todas as horas, a novidade oculta das coisas repetidas. Toda a realidade humana é aparição de Cristo ressuscitado. No trabalho e no descanso, no êxito e no fracasso, Cristo faz-se companheiro, comendo do nosso pão. Há em todo o insucesso, do outro lado das coisas e da vida, uma margem de bruma e de mistério, onde Cristo se passeia e nos espera.

“Lançai as redes e encontrareis” – Diz Jesus no Evangelho. Os discípulos assim fizeram e encontraram. A obediência da fé opera em nós maravilhas e revela a glória do Senhor. Na barca da Igreja, a regra de vida, a garantia do êxito consiste em obedecer. É a obediência que redime, e não os meus esforços e planos salvadores. Tenho de btrabalhar na fé toda a noite, atravessar a escuridão e o cansaço, até ao romper do sol da graça, à hora que Deus marcou. Só então compreenderei que o insucesso também é graça e esperar é já possuir.

Fé é o gesto de lançar redes e encontrar o que artes e razões não entendem nem alcançam. Com os meus esforços vãos, quer Deus, a qualquer hora, encher-me a barca. Da fé nasce o amor. Reconhecer Cristo é despojar-me de tudo e lançar-me n’Ele. O amor não conhece dificuldades, não mede distâncias. A dificuldade é amar. Uma palavra nos basta: “É o Senhor!”.

“Simão, tu amas-me?” – Jesus pergunta a Pedro. Exame final! O primado de Pedro decide-se no amor. Quem mais amar, esse será primeiro. A autoridade da Igreja é ofício de amar, “presidência da caridade”, que dá a vida pelos irmãos. Mas não só. Também o cristão foi investido na arte de amar, na excelência da vida por amor. Amar os outros é o grande testemunho, a grande prova de vida, que andamos a aprender.

Diante de Deus e dos homens seremos examinados no amor. Peçamos à Bem-aventurada Virgem Maria, que interceda por nós junto do Senhor Jesus ressuscitado e nos conceda a graça de O encontrarmos nos acontecimentos do dia a dia.

Diácono António Figueiredo

TOMÉ NÃO ESTAVA COM ELES

Meditando a Liturgia da Palavra do II Domingo da Páscoa

A paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja connosco, neste Domingo em que celebramos a Misericórdia Divina. 

A Liturgia da Palavra deste segundo Domingo da Páscoa leva-nos a reflectir sobre a perseverança da nossa fé nessa misericórdia.

A Igreja é comunidade de Fé. Somos um povo de crentes, reunidos em volta do Senhor ressuscitado. Viemos do cativeiro e desertos, ao encontro de Alguém que está vivo. A Ressurreição é o fundamento da nossa fé. “Se Cristo não ressuscito, vazia é a nossa pregação, vazia é também a vossa fé”. (1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios 15, 14). Estava o Evangelho suspenso à espera desta hora. Cristo ressuscitou como prova e garantia de quem era e da verdade que ensinara. 

A primeira leitura é dos Actos dos Apóstolos 5, 12-16. A nascente comunidade cristã era constituída por pessoas que viviam unidas pelos mesmos sentimentos, eram estimadas, muito admiradas e por isso exerciam forte atracção nos que com eles contactavam. Isto originava que muitas outras pessoas se tornassem discípulas de Cristo. 

O Salmo Responsorial é do salmo 117 (118). Neste salmo declaramos que o Senhor é bom e a referência à pedra rejeitada, que se tornou pedra angular, faz-nos recordar a Paixão e a Ressurreição de Jesus, fundamento da nossa fé na misericórdia divina.

A segunda leitura é tirada do Livro do Apocalipse 1. 9-11a.12-13.17-19. Para compreender esta leitura, estejamos atentos ao seguinte: o Filho do homem é o Senhor ressuscitado, fonte de misericórdia; a veste comprida do sacerdote indica que Jesus é agora o único sacerdote; a faixa dourada à cintura é o símbolo da sua realeza; os sete castiçais indicam a totalidade das comunidades cristãs. 

O Evangelho é de S. João 20, 19-31. A evidênia possui a prova irrefutável de um facto. A felicidade e alegria daqueles que acreditam sem terem visto é a fé realmente pura. “Jesus veio colocar-se no meio deles” – refere o Evangelho. Foi para isto que Ele ressuscitou. À Sua volta se congregam os discípulos, formando a Igreja, o novo povo de Deus, convocado pelo anúncio da Sua Ressurreição. A Igreja é a convocação pascal, a assembleia festiva, que torna presente e celebra Cristo ressuscitado e proclama a nossa própria ressurreição. Foi o prémio e dom do Pai pela vitória de seu Filho. Somos um povo de ressuscitados, o perpétuo memorial da Páscoa do Senhor.

A Igreja é Cristo ressuscitado, em aparição permanente. Através do disfarce de fragilidades e estruturas, torna Cristo presente pelos caminhos dos homens. Cristo e a Igreja fazem um só com o Pai, na unidade do Espírito Santo. No mistério da Igreja, Cristo aparece e desaparece nas suas limitações e disfarces de peregrina. Vive nela, mesmo que a tempestade se levante e se lhe fechem todas as portas. A verdade e o amor não têm prisões nem cadeias. Quando de fora se erguerem muros e dentro surgirem tensões, a glória do Senhor não tarda. “A paz esteja convosco”.

“Tomé não estava com eles” – salienta o Evangelho. Por isso não acreditou. A fé nasce do facto da Ressurreição de Jesus, presente e vivo entre os irmãos. Consiste em viver como Jesus vive, estar onde Ele está. Estar com Ele quer dizer estar com a Igreja em comunhão, acreditar no que Pedro acredita. Para acreditar tenho de tocar Cristo e entrar em relação íntima e pessoal com Ele. Mas há ausências que impedem, orgulhos e recusas que resistem. Quem quiser reconhecer Cristo, tem de tocar-Lhe as chagas. Tocar a dor é ver mais longe, aceitar os caminhos por onde Ele vem. Fé é tocar o amor e cair de joelhos: “Meu Senhor e meu Deus”. 

“Felizes os que acreditam” – diz Jesus no Evangelho. A perfeita felicidade veio-nos com Jesus ressuscitado, saltando muros, abrindo portas. “A fé é a vitória que vence o mundo”, o triunfo da dor e da morte. Para ser feliz é preciso acreditar na Felicidade, que é Jesus. Os crentes encarnam as testemunhas fiéis da alegria do Senhor. Levam na própria vida, como em escritura sagrada, a alegre notícia de Jesus ressuscitado. Só aquele que tocar Jesus pode anunciar a palavra da vida e ser argumento para aqueles que não viram.

O cristão testemunha na vida e nas obras a felicidade de acreditar. “Que os homens Me vejam e toquem e caiam de joelhos”: “Jesus, eu confio em Vós”.

A Virgem Maria, Mãe de Misericórdia, nos ajude a viver neste jubiloso tempo pascal na alegria e na Paz do Senhor Jesus ressuscitado.

Diácono António Figueiredo

A BOA NOVA

Meditando a Liturgia da Palavra da Santa Missa do Domingo de Páscoa

Celebramos hoje a Páscoa da Ressurreição do Senhor, a celebração litúrgica donde nasceram todas as outras. A Ressurreição do Senhor era o grande sinal, a grande expectativa. Já era o terceiro dia, já os insensatos e lentos de coração se cansam de esperar. Chegou a hora. “A paz esteja convosco”. E se não é verdade? E se temos de esperar por outro? “Sou Eu! Não temais!” – sossega-nos Jesus.

A Páscoa cristã é a Festa. Todos fomos convidados para o banquete, vindos de longe, por caminhos de graça. Páscoa é a festa da divina economia, onde as dívidas se pagam a preço de sangue. Páscoa é a festa do amor crucificado que dá a vida por amor. Páscoa é a festa da alegria, posse de nova terra, comunhão de novas gentes.

A primeira leitura é dos Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43. Em casa do centurião Cornélio, na cidade de Cesareira à beira mar, Simão Pedro, onde foi enviado pelo Espírito Santo, dá um vibrante testemunho sobre a Ressurreição de Jesus.

O Espírito Santo convida-nos, pelo Salmo Responsorial (Salmo 117 (118) 1-2.16ab-17.22-23) a exultar de alegria pela Ressurreição do Senhor. Que a alegria e o canto deste salmo brote do mais íntimo do nosso coração como homenagem a Jesus ressuscitado.

Na segunda leitura, da 1ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios 5, 6b-8, somos convidados a uma grande pureza de vida, digna de quem segue a Cristo ressuscitado.

O Evangelho desta solenidade é de S. João 20, 1-9. S. João começa com a verificação do túmulo vazio, feita por Maria Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

A Ressurreição de Jesus é mistério difícil, que só na fé se aceita, envolta em sinais. Uma pedra revolvida nos atrai, faixas abandonadas nos interrogam. Jardineiro no horto, caminhante de Emaús, pescador no lago, são os disfarces da fé em que Cristo se esconde para O podermos ver e tocar. O Cristo ressuscitado é o Cristo da fé, inaugurando a ordem nova e o estilo novo das suas relações pessoais. “Não me detenhas” – Evangelho de S. João 20, 17. Há um véu novo, que se interpõe entre nós e Ele, véu de graça e de verdade. O antigo rasgou-se. Por isso os discípulos duvidam sempre. Ninguém se escandalize. Também uma dúvida pode ser amor. “Não ardia o nosso coração?” .- Evangelho de S. Lucas 24,32.

A Ressurreição é mistério de paz e alegria. “A paz esteja convosco”. Há um mistério de gozo a envolver os discípulos, presença visível e fruto do Espírito Santo. O Espírito do Pai e do Filho foi o presente pascal de Cristo à sua Igreja, o dom que nos trouxe do Pai. – Evangelho de S. João 20,22. Paz e alegria são o novo estilo de viver, aprendido no Senhor ressuscitado. A alegria nasce da cruz. Supõe renúncias e subidas, varrer a casa primeiro. Vive do outro lado do sofrimento, à margem de ruídos, desabrochando em sorrisos e optimismo cristão. A alegria é o rosto de Deus que ficou enhtre os homens. A Ressurreição é mistério de amor. Ardem os corações em pressa de comunicar-se. Tudo acontece a correr naquele dia de Páscoa. Correm as mulheres e os discípuos a levar aos outros a Boa Nova, corre Cristo ressuscitado, amando e consolando. É o amor que nos ressuscita e liberta. A grande pressa é amar.

Páscoa é a alegre notícia do amor partilhado. “Vai dizer a meus irmãos”. – Evangelho de S. João 20,17. Quando eu amo o meu irmão, há sempre um túmulo que se abre, um coração que revive. O mistério pascal envia-nos ao mundo em ressurreição permanente. No gesto de partilhar é que eu e os outros O podemos reconhecer. Os discípulos de Emaús só reconheceram o Senhor, quando repartiram com Ele o seu pão. Os irmãos são o caminho mais certo e mais curto, por onde Cristo nos aparece. A graça pascal está em dar gozo aos meus irmãos, fazer os outros felizes. É ofício de consolar que aprendemos de Cristo. Serei anjo de consolação na medida em que for, na medida em que me der. Com Maria, alegremo-nos na Ressurreição de Jesus e procuremos imitá-l’O.

O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia! Aleluia!

Diácono António Figueiredo

AS PEDRADAS DE DEUS

Jesus é a manifestação viva da misericórdia de Deus. De Deus que acolhe os pecadores e a todos quer salvar. Todos somos pecadores e seremos levados a juízo. Como aquela mulher, também em nós o amor se adulterou, convertido em egoísmo e negação. Apanhados em flagrante, só nos salva o amor misericordioso.

Do livro do Profeta Isaías, 43, 16-21, é tirada a primeira leitura. Nesta passagem o profeta anima os israelitas no desterro da Babilónia. O Senhor não os esqueceu e vai reconduzi-los de novo à sua terra. É um símbolo da conversão do coração, que Deus nos pede a todos nós, de modo especial neste tempo favorável da Quaresma.

Para o Salmo Responsorial, temos o salmo 125 (126) 1-6. Este salmo é todo ele um recordar do regresso do cativeiro. Fala-nos da alegria da nossa conversão.

A segunda leitura é da Epístola de São Paulo aos Filipenses 3, 8-14. Nesta passagem, São Paulo ensina-nos o amor apaixonado de Jesus, desprezando todas as coisas por Seu amor.

A passagem evangélica para a Liturgia da Palavra deste Domingo, vem de S. João 8, 1-11, e nos recorda que Jesus está sempre pronto a perdoar, mesmo os pecados mais graves, ao mesmo tempo que nos anima a sairmos deles.

Com os restos de tudo vamos edificar o homem novo, à imagem de Jesus Cristo. “Vou fazer algo de novo” – 1.ª leitura. Esquecendo o que fica para trás, vou lançar-me para a frente (2.ª leitura). A meta é Cristo ressuscitado. Entrei na prova da vida e fui logo alcançado pelo amor de Jesus Cristo. Amar é correr os dois na mesma direcção; mas Ele chega sempre primeiro. Cristo em mim tudo ultrapassa. Ele é a verdade que deixa para trás todo o conhecimento, o amor que tudo supera e sacia.

Só os corações puros podem ver e julgar. “Quem estiver sem pecado” – diz Jesus no Evangelho. Se os teus pensamentos forem armadilha, os teus juízos já são pedradas. Para tocar em nome alheio é preciso ter as mãos muito limpas e o coração muito puro. As intenções dos outros são domínio sagrado, que Deus vigia como um tesouro. “O homem vê as aparências, mas Deus penetra no íntimo do coração” – 1.º Livro de Samuel 16,7. Que sei eu dos outros e de mim? Por isso Deus nos retirou o direito de julgar. “Não julgueis … não condeneis”.

A um homem caído não se pisa, mas ajudamo-lo a levantar-se. Se o meu irmão pecar, não o devo desprezar, nem corro a acusá-lo com zelo farisaico, mas vou ter com ele para ganhá-lo. Só tenho o direito de me julgar a mim mesmo e a mais ninguém. Julgar o outro é um processo desleal de me declarar inocente, ilibado de erros e de culpas. “O juízo é de Deus” – Livro do Deuteronómio 1,17.

O pecado e a misericórdia ficaram frente a frente. “Ficou só Jesus com a mulher” – refere o Evangelho. Nas contendas das pessoas, nas surpresas da vida só o amor fica e permanece acima das razões, triunfando da justiça. A única realidade é amar. Só o amor fica. E os outros, onde estão? Foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos. Legalismo e misericórdia encontraram-se no templo. A misericórdia ficou; os outros não. Só Deus é Lei; e a sua lei é o amor. 

Cristo está diante de nós como única saída. Só Ele tem a resposta que emudece, a razão que convence. É Cristo que vem denunciar a injustiça dos condenados, encher a solidão dos incompreendidos. Não serei julgado pela Lei, mas pelo autor dela e de mim. Cristo remiu também a Lei. Agora é o amor que nos acusa e nos absolve. Agora temos por juiz o amor misericordioso.

“Vai e não voltes a pecar” – diz Jesus à mulher pecadora. Liberta-te do passado. A partir do que foi, construirás o que há-de ser. Todos os caminhos são buscas da verdade, todos desembocam em Cristo. Até nos caminhos mais sinuosos há um fio de rectidão que se prende no coração de Deus. Dá-te ao presente, vive na novidade de Cristo ressuscitado. Nada rejeites, mas tudo integra e transforma na tua história de salvação.

Como São Paulo, o cristão não se preza de saber mais nada, senão a eminente ciência de Jesus Cristo (1.ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios 2,2).

A Virgem Maria nos ajude a testemunhar a todos o amor misericordioso de Deus, que em, Jesus nos perdoa e renova a nossa existência, oferecendo-nos sempre renovadas possibilidades.

Diácono António Figueiredo