Artigos

“Não podemos calar”

“NÃO PODEMOS CALAR O QUE VIVOS E OUVIMOS”
(Actos dos Apóstolos 4, 20) 

É este convite a cuidar e dar a conhecer aquilo que cada um de nós tem no coração, que nos é dirigido pelo Santo Padre na sua mensagem para o Dia Mundial das Missões que hoje celebramos.

Realmente, o Senhor não quer discípulos «sentados», discípulos «estacionários». Quando Ele passa e nós estamos sentados, à beira do caminho, tudo se transforma: a escuridão em luz, o desalento em esperança, o medo em confiança, a paralisia em movimento, a berma da estrada em caminho. 

Neste Dia Mundial das Missões, a pedido do Papa Francisco, «recordemos com gratidão todas as pessoas, cujo testemunho de vida nos ajuda a renovar o nosso compromisso baptismal de ser apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Lembremos especialmente aqueles que foram capazes de partir, deixar terra e família para que o Evangelho pudesse atingir sem demora e sem medo aqueles ângulos de aldeias e cidades onde tantas vidas estão sedentas de bênção» – (Papa Francisco, mensagem para o Dia Mundial das Missões, 2021)

Liturgia da Palavra do XXX Domingo do Tempo Comum Ano B

Depois de um convite para louvar o Senhor, o texto da primeira leitura, tirado do livro de Jeremias, 31, 7-9, põe diante de nós uma grande procissão de alegria e de esperança, onde há cegos, coxos, mulheres grávidas e parturientes. Procissão maravilhosa onde ninguém fica para trás. Verdadeiramente, o Senhor quer reunir todos os homens e de todos fazer um só povo, o Seu povo.

Dividido em duas partes, a narrativa da segunda leitura, tirada da Epístola aos Hebreus, 6, 1-5, enumera as condições para ser sacerdote no Antigo Testamento; ser de origem humana; ser intermediário entre Deus e os homens, oferecendo sacrifícios para expiar o pecado e ter vocação, isto é, ser chamado por Deus … e apresenta Jesus Cristo, o sacerdote eterno, à maneira de Melquisedec, que oferece ao Pai um sacrifício único e irrepetível. 

O Evangelho extraído de S. Marcos, 10, 46-52, apresenta-nos a cura do cego Bartimeu, à saída de Jericó. Está em cena muito mais do que cegueira e geografia. Está aqui um caminho exemplar de fé e de missão. Bartimeu chama por Jesus, reconhecendo-O como Messias… logo que Jesus o chama, corre para Ele, contra tudo e contra todos, e obtém a vista, devido à sua fé… e na fé segue a Jesus no caminho que leva a salvar a vida, perdendo-a.

Bartimeu era um cego “que via”. «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim» – pede a Jesus. Ao saber que se aproximava, “viu” nele o Messias esperado e acreditou no seu amor misericordioso. Um cego reconhece a realeza de Jesus e o seu poder soberano. Mas chefes e doutores obcecados pelos seus raciocínios e deduções, não viram o que um cego inculto reconheceu. Na simplicidade e na rectidão da sua fé, o cego correu ao encontro de Jesus e chegou primeiro que os sábios e inteligentes.

O cego dirige-se a Jesus dizendo “Filho de David”. Na verdade, trata-se de um título messiânico. Jesus sobe para Jerusalém, onde vai ser aclamado pelo povo Messias-Rei. No caminho, um pobre cego, antecipa-se ao clamor da multidão na sua entrada triunfal, tirando o manto e aclamando-O Filho de David. “Muitos o repreendiam para que se calasse”. O seu grito incomoda, como hão-de incomodar depois ramos de palmeira e hossanas na hora do triunfo. Mas Bartimeu não teve medo “e gritava ainda mais”.

Na nossa vida cristã e seguimento de Cristo, há sempre alguma coisa que nos detém. Levantam-se no caminho razões humanas e falsas prudências, que nos afastam do amor generoso e incondicional. Como os convidados do banquete alegamos desculpas inconsequentes, surdos ao convite do Senhor que passa, dispensando-nos de compromissos e exigências. E a vida, que podia ser grito a interrogar multidões, apaga-se tristemente em contratestemunho e vulgaridade. Em resposta a Cristo que passa e nos chama, damos as sobras do banquete, ficando mais cegos e mais pobres, sentados à berma dos outros e de tudo.

“O cego deitou fora a capa” – refere o Evangelho. Assim era necessário para poder dar o salto. Não há progresso espiritual, oração perfeita, sem abnegação e renúncia. Para entrar na intimidade de Deus, tens de despojar-te de ti e de tudo o que te prende e distrai. Há coisas que sobram na vida e impedem de saltar ao encontro de Cristo. Deixa de fora orgulhos e sabedorias que ensurdecem e não te deixam escutar o chamamento do Senhor.

Todos somos cegos e queremos ser salvos. “Vai, a tua fé te salvou”. Mas para isso é preciso reconhecer a própria cegueira e incapacidade dos nossos esforços. A fé é a força que nos salva e nos cura pela confiança inabalável da palavra de Deus. Através das nossas limitações, vamos aprender a ciência de esperar e a eficácia da palavra do Senhor. “Sem mim nada podeis fazer”. A fé aprende-se no sofrimento. É o salto para os braços de Deus para ver e ser curado.

Mudança radical, cura perfeita. “”Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus”. Agora, já não lhe basta rezar, mas sente a necessidade de O seguir. Quando a graça invade uma vida, o amor são obras. A lógica do amor é seguir e imitar. Para onde? Para quê? Bartimeu não perguntou. Mas o caminho que escolheu termina em cruz.

Cristo é o caminho, o princípio e o fim. Já sabes. Escolheste seguir a Cristo? Já chegaste ao fim.

Diácono António Figueiredo

Diácono António

Centro Social e Paroquial

Colocação da pedra angular da igreja paroquial, a 4 de abril de 1994, por Dom Albino Cleto

[Este é o quarto e último artigo do Padre Manuel Martins, que republicamos, na celebração dos 25 anos da dedicação da nossa igreja paroquial. Publicação original a 20 de outubro de 1996]

Artigo do Padre Manuel Martins
(de 20 de outubro de 1996)

Vivemos numa sociedade em constante mutação. O êxodo para os centros urbanos é inevitável. Os Planos Directores das Câmaras Municipais foram ultrapassados pela avalanche migratória. A Igreja atenta e sensível também aos problemas sociais, tem colaborado voluntariamente com as Entidades Governativas. Viu a urgência de dar resposta aos anseios das pessoas. Criou espaços de convívio e acolhimento para Idosos, – construiu para eles um Centro de Dia e Lar -; pensou nas famílias que trabalham e ofereceu-lhes Jardim de Infância e A.T.L. para as crianças; para os jovens que demandam os caminhos da vida, mostra-lhes ideais nobres e sublimes. Deu-lhes ocupações úteis. Para eles construiu a Escola de Música e organizou outras actividades para os ocupar e prevenir da marginalidade social. E para aqueles que são cristãos construiu também uma Igreja. Nela todos podem encontrar paz e acolhimento nos braços do Pai Nosso, o Pai que a todos ama com Amor infinito e misericordioso e não faz acepção de pessoas.

Padre Manuel Martins (20-10-1996)

Uma nova igreja? Para quê?

Benção da pedra angular, a 9 de abril de 1994, entidades e fiéis.

[Este é o terceiro artigo do Padre Manuel Martins, que republicamos por ocasião do 25º aniversário da dedicação da nossa igreja paroquial. Publicação original a 20 de outubro de 1996.]

artigo do Padre Manuel Martins
(de 20 de outubro de 1996)

Entre os edifícios do complexo Social e Paroquial de Linda -a-Velha, eleva-se majestosa e altaneira, como Lua cheia rasgando apressadamente as nuvens em salpiques de luz, uma torre. É o sinal que ali existe uma Igreja. 

O Salmista ao passar em frente escreveu: “Eis a mora Deus com os homens”. É exactamente este o símbolo desta construção. Ao longo da História da Salvação Deus revelou-se o Pai de todos os homens. A todos deu a possibilidade da salvação e da felicidade plenas. Por isso os convida constantemente para a Sua Casa. para a Sua Mesa. E o homem que reconhece e aceita o convite exclama: “Abris. Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome”.

A Igreja, enquanto Povo de Deus, nestes dois mil anos de cristianismo, ensinou a Boa Nova. Mas aparece também como inspiradora e impulsionadora da cultura e da arte. A pintura, a escultura, a arquitectura, a literatura, a poesia e a música desabrocharam na Igreja ou à sombra da Igreja. Estas realidades não são coisas só de outros países. Viajando por este Portugal fora, constatamos que 80% do que ainda existe de artístico é de inspiração cristã ou tem a marca do cristianismo.

Voltando à Igreja, no seu duplo aspecto de Templo e de Povo de Deus, a sua missão continua a ser a mesma de Jesus Cristo: levar a libertação aos oprimidos, a alegria aos que sofrem, a salvação aos pobres e a Boa Nova a todos os povos.

Mais uma vez salta fora a pergunta: para quê uma Igreja? Não se podia com esse dinheiro ter construído casas para os pobres? Seria bem verdade se tal pergunta não tivesse sido interceptada por um corte de corrente.

Seguindo esta lógica de ideias não adianta pensar nos pobres, fazer casas para os pobres etc.. se antes não pensarmos no Pai dos pobres. Aquele que nos dá o pão de cada dia e também uma casa para o pobre. Tudo o resto vem por acréscimo.

Por outras palavras: sem a Igreja, Povo de Deus, animada pelo Espírito Santo, o ser humano não encontra o caminho que eleva o espírito para a Fonte de todo o Bem, para Aquele que é Amor. Perde-se entre as criaturas. Deixa de ter a Estrela Polar. Não encontra a razão de ser da sua existência. Não sabe de onde veio. o que anda aqui a fazer, nem para onde vai. Com o espírito embotado pela matéria passa a viver no vazio… Não sabe mais amar. Torna-se infeliz porque não ama nem é amado. E mais nenhuma criatura pode preencher a sua capacidade infinita de ser amado. “Criaste-nos para Ti. Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansa em Ti”. (Santo Agostinho)

Ciente deste drama do homem, a Igreja continua a educar para os valores humanos e espirituais. Ela é defensora da liberdade, da justiça, da verdade, do progresso, do direito, da paz e do amor…

Sabemos todos muito bem que a falta de educação para os valores e para o reconhecimento do Supremo Criador muda o rosto do homem. Converte-o num monstro feroz para o outro homem. Ou não será exactamente isto que se tem verificado e vivido nos nosso dias e em todas as guerras deste século?

E então? Nesta sociedade, onde reina o materialismo desenfreado, o egoísmo atroz, a libertinagem e as diversas formas de injustiça e de opressão, não será urgente e necessária a presença da Igreja? Ela é a luz que brilha nas trevas, que alimenta a esperança e diz aos homens escravos das suas paixões: no fim do túnel há oxigénio, há uma saída para a liberdade”.

A grande multidão dos verdadeiros cristãos, que amam o próximo como a si mesmos e amam a Deus acima de tudo, tem sido obreiros incansáveis da paz. Continuam a semear a justiça, a bondade e o amor por todo o mundo. E no serviço voluntário da Assistência Social são sempre os primeiros. Das três mil obras sociais existentes no País, 4/5 são da Igreja Católica e das Misericórdias. Estes cristãos vivem e ensinam que a justiça, a paz, o progresso e a liberdade têm uma e a mesma linguagem – a do amor.

Padre Manuel Martins (20-10-1996)

Três obras complementares e vitais

Benção da pedra angular da igreja, a 9 de abril de 1994, presidida por Dom Albino Cleto

[Este é o segundo artigo do Padre Manuel Martins, que republicamos para celebrar o 25º aniversário da dedicação da nossa igreja. Foi publicado originalmente a 20 de outubro de 1996, no dia da dedicação da igreja paroquial de Nossa Senhora do Cabo.]

Artigo do Padre Manuel Martins
(de 20 de outubro de 1996)

Os novos edifícios do Complexo Social e Paroquial são da Comunidade e para a Comunidade. Têm um preço elevado e exigem, por isso, um esforço colectivo para saldar as dívidas e mantê-los sempre operacionais. 

1. O LAR E CENTRO DE DIA, 
com 3 pisos ocupa uma área de 2120 m2. Custou 219.393.798 escudos (s/IVA).

– Para equipamento são mais 33.000 contos.
Subsidiaram: 
– Centro Regional de Segurança Social (aprovados: 138.000 c/): recebidos: 109.964.1385
– Câmara M. de Oeiras (aprovados: 54.856.000$); recebidos: 45.520.218S 
– Paróquia, pagou 28.000.000$.
Falta pagar ao Empreiteiro: 53.000 contos. 
Para equipamento faltam ainda: 18.000 contos.

2. IGREJA, com 4 pisos ocupa uma área de 5.020 m2 e custou 378.018.000 escudos (s/IVA).

Subsidiaram:
— DGOT (aprovados: 163.000 contos); recebidos: 151.495.000$
— C.M.O. (aprovados: 61.222.0005); recebidos 38.720.000$ 
— Paróquia, pagou 125.000.000$
e pagou mais, 26.550.000500. assim distribuídos: Projecto: 7.800 contos: Fiscalização: 6.650 contos: bancos d Igreja: 7.500 contos; vitrais, portas e janelas: 5.600 contos.
Ao empreiteiro ainda devemos: 57.380.200500. 

ARRANJOS EXTERIORES, orçamentados em 23.000 contos, vão ser subsidiados pela Câmara M. de Oeiras, que já aprovou 6.000 contos e vai dar algum material; pela oferta de mão de obra e máquinas de construção; anónimo: 6.500 contos; e pela Paróquia que deverá pagar cerca de 10.500 contos.

SALÃO DE FESTAS/ AUDITÓRIO, orçamentado em 22.000 contos, está a ser subsidiado por construtor com a oferta de material no valor de 6.650 contos. A Paróquia deverá pagar 17.150 contos.

Os números são assustadores. Mas confiamos em Deus. E “Quem confia no Senhor nunca fica desiludido”. Se vivermos unidos em comunhão cristã, venceremos.

3. ESCOLA DE MÚSICA, com 4 pisos ocupa uma área de 2.958 m2, custou 500.000 contos. 

Foi subsidiada pelo PRODEP com 70%, e pela Câmara Municipal de Oeiras com 30%.

Esta soma era o preço da Escola e do Auditório projectados. Mas, devido a erros de cálculo de “cambão” no concurso, o Auditório teve que ser eliminado.

A Escola de Música foi fundada há 18 anos. E este edificio entrou em funcionamento há dois. Tem uma média de 570 alunos e 58 professores.

A Paróquia pagou 23.800 contos de instrumentos e de equipamento, e continua a ser o suporte jurídico e sobretudo financeiro.

Padre Manuel Martins (20-10-1996)

O Sonho e a Obra

Igreja Paroquial de Linda-a-Velha em construção

Republicamos nestes dias quatro textos do Padre Manuel Martins, primeiramente divulgados no folheto distribuído aquando da dedicação da igreja paroquial de Nossa Senhora do Cabo, a 20 de outubro de 1996. O primeiro é este: “o Sonho e a Obra”

Artigo de Padre Manuel Martins
(de 20 de outubro de 1996)

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce“. São assim os grandes “mestres”. Têm intuições que conseguem em poucas palavras transmitir conceitos profundos e lições magistrais. Serve de exemplo esta citação lapidar de Pessoa.

Aplicada – atrevidamente – a esta obra Social e Paroquial, apenas com seis palavras se explica e esclarece o longo e duro caminho que foi necessário percorrer para que o sonho de alguém se convertesse neste grandioso empreendimento que vai servir toda a comunidade humana de Linda-a-Velha e a todos acolher com bondade e amor.

Na verdade, se por detrás destas obras não estivesse actuante a Vontade de Deus, os homens podiam sonhar anos a fio, que nunca teriam cometido a ousadia de deitar mãos à obra.

A História ensina que as grandes obras acontecem sempre que o homem sabe colocar-se no seu lugar – o de criatura. Nesta atitude de humildade ele trabalha e ora com o Salmista: “Se não for o Senhor a construir a casa, em vão trabalham os construtores: Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas”. (Sl. 126).

Desde que a pequena aldeia de veraneio, que era Linda-a Velha, foi abrangida pelo Plano de Urbanização na década dos anos 50, a célula central entre a Rua dos Lusíadas e a R. Pedro Álvares Cabral, foi reservada aos serviços comunitários. E em 1955 o terreno foi aprovado pelo então Ministro das Obras Públicas, para a construção de um Centro Social e Paroquial e uma igreja.

Devido à inércia de uns e à ambição de outros os anos foram passando e o terreno acabou noutras mãos. Quando tudo parecia perdido apareceu publicado no Diário da República, em Abril de 1983, um Despacho do Ministério da Administração Interna, que “declara de utilidade pública a expropriação do referido terreno, para a construção de um Centro Social e Paroquial e de uma Igreja. Alcançada a devolução de grande parte do terreno para se cumprir os primitivos objectivos comunitários, foi possível na década de 80 elaborar projectos e processos correctos e objectivos.

Obtida a aprovação dos projectos financeiros, faltavam os meios.

Apresentamos as preocupações da Comunidade ao actual Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Dr. Isaltino A. de Morais, que desde logo compreendeu a importância social, cultural e religiosa daquele projecto ambicioso, mas de grande importância para toda a população. Num rasgo de intuição genial deu de imediato a decisão: a Câmara oferece a participação financeira e de interlocutora junto do Governo para a obtenção dos subsídios necessários. Para abono da verdade há que reconhecer que, se não fosse a vontade determinante do Sr. Presidente, estas obras não teriam sido construídas. Por isso, conhecendo o trabalho desenvolvido nesta área Social e Religiosa pelo Dr. Isaltino A. de Morais, sentimos ser nosso dever de gratidão e de justiça, formular um voto de gratidão e louvor pelo modo eficiente como tem colaborado com as Paroquias do Concelho. São muitas as obras sociais, culturais e as Igrejas que tiveram a aprovação e o apoio financeiro da Câmara, como nenhuma outra do país.

E óbvio que por detrás dos grandes empreendimentos há sempre os que de maneira mais notada ou mais na sombra, dão o seu melhor para que o sonho se torne realidade. Assim aconteceu com estas obras. No primeiro caso, estão aqueles que receberam do seu Bispo o múnus de ensinar a Boa Nova e os caminhos da fé, de santificar, e de governar o Povo de Deus. O esforço e o trabalho desmedido, persistente e firme, para construir a Igreja viva e a Igreja de pedra, nunca será avaliado nem apreciado pelos homens deste tempo. Basta a estes Obreiros do Reino viverem a fé e a verdade em que acreditam. Os paroquianos em união com o Pároco formaram o grupo indispensável técnica e financeiramente para que todas estas obras apareçam hoje realidades concretas. Elas vão acolher e servir todas as camadas etárias, sem acepção de pessoas, nas áreas social, cultural e religiosa.

É dever lembrar aqueles que no anonimato deram o melhor de si para que o projecto não ficasse no sonho. Entre os contribuintes apareceram muitos que deram o “óbulo da viúva”. “Deram só um cruzado. Tudo o que possuiam para a sua subsistência”. Também recebemos somas avultadas, que só Deus conhece e pode recompensar.

Foram os esforços conjuntos de todas estas boas vontades que, associadas ao apoio das Entidades Governativas, à colaboração do Projectista, Arq. Nuno Garrido ArquiOficio, e da Empresa Soares da Costa, possibilitaram, mesmo através de tantos contra-tempos e imprevistos, a construção destes edifícios que, sem dúvida, são o orgulho dos moradores de Linda-a-Velha e do Concelho de Oeiras.

Padre Manuel Martins (20-10-1996)

A tentação do poder

Liturgia da Palavra do XXIX Domingo do Tempo Comum ano B

(Profecia de Isaías 53, 10-11; Epístola aos Hebreus 4, 14-16;

Evangelho segundo S. Marcos, 35-45)

Na primeira leitura, o profeta Isaías fala do Messias que havia de vir e da salvação que alcançará para todos os povos, através da oferta de Si mesmo em sacrifício.

A segunda leitura tirada da Epístola aos Hebreus, apresenta-os Jesus como nosso Sumo-sacerdote, muito perto de Deus e muito perto de nós.

No Evangelho, Jesus fala da verdadeira grandeza que está em servir os outros.

Anda o mundo atrás de ídolos, dobrando o joelho a toda a hora. Uns são escravos do dinheiro, como o jovem rico; outros, tentados pelo poder, como Tiago e João.

A tentação do poder entra em toda a parte, mesmo no lugar santo. “Concede-nos que nos sentemos” – refere o Evangelho. Anda o poder desfigurado pelo falso rosto de ondas e grandezas, corrompido por injustiças e ambições pessoais. Mandar é servir, Os governantes são servos do bem comum do9s cidadãos, que os elegem. Servem o povo e não o partido. Antes de serem servos de qualquer ideologia, são servos do povo. Políticos e governantes têm muito que aprender. 

“Mas entre vós não deve ser assim” – diz Jesus no Evangelho. “Quem quiser ser o primeiro, tem de se, tem de se o servo de todos.”. Bem claro. A autoridade na Igreja não é poder que se conquista, mas serviço que se dá. Não é ambição de grandezas, mas missão a cumprir, enviados em pobreza, sem bolsa nem alforge. Não há fumos de incenso, nem tronos, nem pedestais. Neste serviço dos irmãos, não são as pessoas que buscam os cargos, mas os cargos que buscam as pessoas. Quem mais amar e servir, esse será o maior. O primeiro lugar faz-se daquele “mais”, que hei-de pôr em tudo o que amo e em tudo o que faço. Onde eu estiver, servindo e amando, aí está o primeiro lugar. Vai o lugar ter comigo e não sou eu que vou ter com ele. Na ânsia de amar, na ambição de servir, terei acesso a honra e grandezas.

O poder na Igreja e na vida religiosa é governo espiritual que não se funda em aparato humano e estruturas temporais. O superior recebe a autoridade de Cristo pelas mãos da Igreja e exerce-a em seu nome. Através do mandato que recebeu, é enviado aos seus irmãos, com o encargo de ensinar, reger e santificar, fazendo da Comunidade, povo de Deus. A grandeza e excelência do superior está em fazer-se servo

“Podeis beber o Cálice? – Pergunta Jesus. O poder de mandar oculta-se por detrás de atractivos e aparências. Mas a realidade é bem diferente. O perfil evangélico do superior revela-se ao mundo pela capacidade de pôr a vida pelos irmãos em amor e serviço. O seu salário mais certo será dor e humilhação. Quem aceita governar, aceita sofrer, bebendo o mesmo cálice que o Senhor bebeu. O poder anda ligado a cálices de amargura e “dar a vida” pelos outros. Quando assim não for, não é servir, mas ser servido, não é poder, mas usurpação. Por isso a definição evangélica do poder é-nos dada n contexto do anúncio da Paixão. Quem aceita governar, aceita entrar em agonia, onde domina e permanece a aridez insistente de humilhações e fracassos, de críticas e solidões.

“Não sabeis o que pedis” – admoesta Jesus. Na nossa oração e critérios de valor há muito dos filhos de Zebedeu. Queremos o poder de Deus ao nosso serviço: em troca de fidelidades, pretendemos benefícios e promoções. Não sabemos que a felicidade nasce da renúncia e que o preço da alegria é varrer a casa primeiro. Queríamos amar sem amor e ressuscitar sem morrer.

O êxito da vida, a resposta aos nossos anseios está na disposição radical de beber o cálice que Jesus bebeu.

Diácono António Figueiredo

Diácono António Figueiredo