Com Jesus, aprender a viver na luz

Queridos irmãos e irmãs,
«Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, Nosso Senhor» (1 Tm 1, 2).
A QUARESMA COMO CONVITE A RETIRAR-SE COM CRISTO
A Quaresma abre-se sempre como um convite exigente e libertador: «Vem comigo». Jesus chama-nos a retirar-nos com Ele – não para fugir do mundo, mas para o reencontrar na verdade. Retirar-se com Cristo é aceitar entrar num tempo de silêncio, de escuta e de conversão; é criar espaço interior para estar na Sua presença e deixar que a Sua Palavra nos habite.
Viver a Quaresma é, por isso, uma escolha espiritual clara: renunciar ao que é sombra para caminhar na luz; afastar-se do ruído que dispersa para acolher a Palavra que orienta; deixar as trevas da confusão interior para permitir que a luz de Deus ilumine o coração. Não se trata de um tempo de tristeza, mas de um tempo de verdade. A luz pode ferir os olhos habituados à penumbra, mas só ela salva, cura e liberta.
O ANALFABETISMO HUMANO E ESPIRITUAL DO NOSSO TEMPO
Vivemos um tempo paradoxal. Nunca tivemos tantas palavras, tanta comunicação, tanta informação. E, no entanto, cresce um silencioso analfabetismo humano e espiritual. Trata-se da incapacidade de dar nome ao que se vive interiormente, de reconhecer o que se sente, de discernir o que se deseja e de compreender o que verdadeiramente move as decisões da vida.
Quando falta esta alfabetização interior, instala-se uma fratura profunda: o que a pessoa sente não coincide com o que faz; o que pensa não orienta o que escolhe; o que vive não encontra sentido. O ser humano torna-se um estranho para si mesmo. Vive fragmentado, reativo, vulnerável à manipulação das emoções, das ideologias e das pressões do imediato.
Este analfabetismo não é apenas psicológico ou cultural; é espiritual. É a perda da linguagem da interioridade, da escuta e da consciência diante de Deus. Quando deixamos de saber ler o coração, também deixamos de saber ler a vida.
Este empobrecimento interior torna-nos particularmente permeáveis às tentações próprias de cada tempo. Num contexto marcado pelo relativismo e por formas difusas de niilismo, não é fácil manter uma posição espiritual equilibrada nem perseverar no caminho da santidade sem resistência interior.
O exemplo de Jesus no deserto, durante quarenta dias, recorda-nos uma verdade incontornável: a centralidade do discernimento. Se não possuímos a gramática interior para compreender o que vivemos e o que nos acontece, como poderemos resistir à tentação aparentemente razoável de transformar pedras em pão para saciar uma fome imediata? Por isso, ao longo desta Quaresma, serão promovidos quatro encontros, em diferentes pontos da diocese, que conjugarão oração e reflexão, precisamente sobre as tentações que hoje mais desafiam a fé, a família, os jovens e a própria Igreja.
A QUARESMA COMO TEMPO DE ALFABETIZAÇÃO ESPIRITUAL
É diante deste entorpecimento da consciência espiritual que a Quaresma se revela como um tempo precioso e necessário. Ela é, antes de mais, um tempo de alfabetização espiritual. A Igreja convida-nos a regressar à escola do Evangelho, a sentar-nos novamente aos pés de Jesus para aprender com Ele a arte de viver.
Com Cristo, aprendemos a dar nome ao que nos habita: à sede de sentido, ao medo, à fragilidade, à esperança, à fome de amor e de verdade. Com Ele, reaprendemos a discernir os sinais do tempo e os movimentos do coração. Com Ele, deixamos que a luz de Deus atravesse as zonas feridas da nossa história pessoal, da nossa vida familiar e da nossa sociedade.
Neste espírito de abertura e responsabilidade, o fruto da nossa renúncia quaresmal será destinado a pessoas e instituições afetadas pela depressão Kristin. O apoio será coordenado pela Cáritas Diocesana de Lisboa.
Partilho a informação de que, no ano passado, o fruto da renúncia quaresmal totalizou 195.117, 37€. Conforme referido na altura, este valor será destinado para os fins anunciados: Centro «Tsarazaza» (na diocese de Mananjary-Madagáscar); Associação Apoio à Vida; Associação O Companheiro.
A oração educa o coração para a escuta. O jejum liberta-nos das dependências que obscurecem o olhar. A caridade abre-nos à verdade do outro e cura o fechamento egoísta. Estes não são gestos formais, mas exercícios espirituais que nos devolvem a unidade interior e nos reconstroem como pessoas livres.
CAMINHAR DA SOMBRA PARA A LUZ
A Quaresma não é um tempo de perfeição, mas de caminho. Não exige respostas imediatas, mas disponibilidade para caminhar da sombra para a luz, da dispersão para a unidade, do medo para a confiança. É um tempo favorável para reaprender a viver reconciliados connosco mesmos, com os outros e com Deus.
Assim, o tempo quaresmal pode tornar-se, para todos, uma verdadeira travessia interior: um tempo para reaprender a ler a vida à luz do Evangelho e para deixar que Cristo nos ensine a ser plenamente humanos, porque plenamente habitados por Deus.
Confiemos este caminho à Virgem Maria, mulher da escuta, para que nos ajude a guardar a Palavra no coração e a deixar que ela dê fruto em obras de conversão, esperança e vida nova.
Peço a Deus que abençoe a todos com uma santa e fecunda Quaresma.
Lisboa, 18 de fevereiro de 2026
† RUI, Patriarca de Lisboa

