
Reflexão à Liturgia da Palavra do XXIV Domingo do Tempo Comum Ano C
FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ
Neste XXIV Domingo do Tempo Comum, Ano C, celebramos a Festa da Exaltação da Santa Cruz, na qual brilha a redenção que Deus quer operar em nós, fazendo-nos ver a triste condição em que nos colocamos quando abraçamos a fealdade do pecado e desejarmos a salvação. Celebrar a Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é celebrar o amor misericordioso com que Deus nos ama. É aceitar também o convite do Senhor para pegar a cruz de cada dia e caminharmos com Ele.
Exaltar a Santa Cruz do Senhor recorda um duplo movimento do nosso coração: traição e procura de perdão. A nossa vida cristã caminha tantas vezes entre estes dois marcadores. Está quase que bipolar, quando deseja ardentemente reclinar, como S. João, a cabeça no peito do Mestre, ou cheia de valentia como S. Pedro que proclama o Senhor como Cristo, o Filho de Deus vivo, ou então caminha na crueldade e frieza da traição de Judas.
Apesar dos nossos queixumes , das nossas insolências, Deus está sempre desejoso de nos perdoar e de nos enviar continuamente ministros do Seu perdão. O povo hebreu, na sua travessia pelo deserto a caminho da terra prometida, revoltou-se contra Deus e contra Moisés, face à escassez de água e alimentos. Por isso o Senhor os castigou e enviou contra eles serpentes venenosas. Face ao arrependimento do povo, Moisés implorou pela misericórdia do Senhor. Na sequência deste pedido, Deus disse a Moisés: “Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste.” . Disto nos dá conta a primeira leitura, do Livro dos Números 21, 4b-9.
Cantando ou rezando vamos repetir o refrão do Salmo Responsorial “Não esqueçais as obras do Senhor”. Para nos libertar do pecado, Deus atrai-nos com vínculos de amor, recordando as Suas misericórdias. A Liturgia propões para este Domingo o salmo 776 (78) 1-2.34-35.36-37.38
“Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio”. S. Paulo canta o mistério da salvação para nos recordar como somos salvos e livres. Q segunda leitura é da Epístola de S. Paulo aos Filipenses 2, 6-11.
O Senhor Jesus Cristo recorda-nos no Evangelho os anseios de Deus Pai pela nossa salvação. Recorda-nos que na fidelidade à Sua aliança , para evitar o ultraje ao seu Santo Nome, lança-se do Céu para nos dar a alegria de lhe correspondermos. “Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem”. Refere a passagem evangélica deste Domingo, do Evangelho segundo S. João 3, 13-17.
“Por isso Deus o exaltou”: Para sermos libertados de tão miserável situação, não nos bastam as nossas forças. Precisamos primeiro de redenção, de perdão. Mas o perdão que desejamos vem da forma que menos esperaríamos: com Jesus morto e ressuscitado, como o único que nos pode libertar das cadeias do pecado. No entanto, este processo pode ser fonte de grande angústia, porque há alguém que morre por nós. Neste processo, com a dor que sentimos, gostaríamos de ser nós a pagar pelas nossas culpas, ou então sermos indulgenciados por Deus. Não conseguimos admitir que um inocente morra por nós. Mas esta é precisamente a grande libertação que Jesus Cristo opera em nós: libertar-nos do orgulho de que somos capazes de nos salvar, porque foi por causa desta atitude que ficamos em tão triste situação. Por isto mesmo, a Cruz é necessária como única fonte de salvação, para transitarmos da escravidão de Satanás para o reinado de Jesus Cristo, porque é o Senhor quem o faz.
“Para que o mundo seja salvo por Ele”, diz a parte final da passagem evangélica deste Domingo. A grande questão é como é que se permanece nesta salvação como permanecemos junto da Cruz salvadora. O Evangelho recorda que “Deus amou tanto o mundo que entregou Seu Filho Unigénito”. Ora este amor requer uma resposta, mas não a da soberba humana marcada pelo pecado, por Satanás, que quer subir ao Céu e arrebatar o trono de Deus para si. Temos pois de recordar as palavras do salmista. “Se o Senhor não edificar a casa , em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade , em vão vigiam as sentinelas”.
Assim sendo, temos que cultivar a atitude que o Senhor Jesus nos recorda no Evangelho: temos de apre der a reconhecer que somos visitados por Deus. Mas isto não é uma atitude passiva. É uma atitude humilde de quem espera no Senhor e só espera no Senhor quem foi libertado pela Sua Cruz.
Desta festividade percebemos toda a força da vida cristã, enquanto preparação, enquanto espera de quem é diàriamente visitado por Deus. Compreendemos porque nos sujeitamos à vida da Igreja , à vida sacramental, ao Ano Litúrgico, a perseguições, a penitências, a boas obras a tanto quanto nos é proposto, poia é a forma como Deus edifica em nós o eu Reino.
Que a Bem-aventurada Virgem Santa Maria, que Deus nos deixa como modelo de espera junto à Cruz, interceda por nós e nos auxilie a não deixar de desejar a Crus redentora.


