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“É O SENHOR!”

Reflexão à Liturgia da Palavra do III Domingo da Páscoa – ano C

A Liturgia deste Domingo menciona três aparições de Cristo ressuscitado. Aparece aos discípulos nas margens do mar; aparece a João na glória do Cordeiro e aparece no Sinédrio pelo testemunho dos Apóstolos. Três rostos que se identificam na mesma presença de Cristo entre os homens. 

Pela sua ressurreição o Cordeiro imolado senta-se no trono com o Pai (2.ª leitura). Cristo glorioso é o Senhor incontestado da história, o primogénito da nova criação.

No Tempo Pascal a primeira leitura é sempre retirada do Livro dos Actos dos Apóstolos. Para este Domingo a passagem proposta é do capítulo 5, versículos 27b-32.40b-41. Aqui é-nos mostrada a coragem e determinação dos Apóstolos quando enfrentaram as primeiras perseguições.

O Salmo Responsorial 29 (30) 2.4-6.11-12a.13b. Este salmo anima-nos a louvar o Senhor que converte as nossas lágrimas em júbilo.

A segunda leitura é uma passagem do Livro do Apocalipse 5, 11-14. S. João nesta visão do Apocalipse, mostra-nos a visão inumerável dos Anjos no Céu aclamando a Jesus, que morreu e ressuscitou para nos salvar. 

O Evangelho é de São João 21, 1-19. Esta passagem evangélica narra-nos a terceira aparição de Jesus ressuscitado aos Apóstolos, desta vez à beira do mar da Galileia. Jesus confirma Pedro, que O havia negado quinze dias antes, como pastor de toda a Sua Igreja.

O testemunho dos Apóstolos e da Igreja leva aos homens de sempre a aparição do Senhor. “Nós somos testemunhas disso” – salienta a primeira leitura. Cristo é o Libertador, que vem abrir prisões, soltar cadeias. Quando se levantar contra a Igreja o “mistério da iniquidade”, aparece nela mais viva a presença e o testemunho de Cristo ressuscitado. O cristão é a pessoa livre, que não teme açoites nem ameaças, e para quem o Espírito Santo é Lei. A lei do Espírito lhe dita a sua opção radical, a objecção de consciência, que ilumina e prevalece. Prisões e cadeias são a violência dos fracos. Mas a violência dos fortes, que convence e triunfa, é a audácia incontida da fé e do amor.

A ressurreição continua. “Jesus apresentou-se na margem” – diz o Evangelho. Acontece-nos na vida como à beira mar. Por isso, não esperemos a aparição só nas horas de ponta que a vida nos traz. O Senhor vem na simplicidade e na monotonia daquilo que acontece sempre. Cristo é a surpresa de todas as horas, a novidade oculta das coisas repetidas. Toda a realidade humana é aparição de Cristo ressuscitado. No trabalho e no descanso, no êxito e no fracasso, Cristo faz-se companheiro, comendo do nosso pão. Há em todo o insucesso, do outro lado das coisas e da vida, uma margem de bruma e de mistério, onde Cristo se passeia e nos espera.

“Lançai as redes e encontrareis” – Diz Jesus no Evangelho. Os discípulos assim fizeram e encontraram. A obediência da fé opera em nós maravilhas e revela a glória do Senhor. Na barca da Igreja, a regra de vida, a garantia do êxito consiste em obedecer. É a obediência que redime, e não os meus esforços e planos salvadores. Tenho de btrabalhar na fé toda a noite, atravessar a escuridão e o cansaço, até ao romper do sol da graça, à hora que Deus marcou. Só então compreenderei que o insucesso também é graça e esperar é já possuir.

Fé é o gesto de lançar redes e encontrar o que artes e razões não entendem nem alcançam. Com os meus esforços vãos, quer Deus, a qualquer hora, encher-me a barca. Da fé nasce o amor. Reconhecer Cristo é despojar-me de tudo e lançar-me n’Ele. O amor não conhece dificuldades, não mede distâncias. A dificuldade é amar. Uma palavra nos basta: “É o Senhor!”.

“Simão, tu amas-me?” – Jesus pergunta a Pedro. Exame final! O primado de Pedro decide-se no amor. Quem mais amar, esse será primeiro. A autoridade da Igreja é ofício de amar, “presidência da caridade”, que dá a vida pelos irmãos. Mas não só. Também o cristão foi investido na arte de amar, na excelência da vida por amor. Amar os outros é o grande testemunho, a grande prova de vida, que andamos a aprender.

Diante de Deus e dos homens seremos examinados no amor. Peçamos à Bem-aventurada Virgem Maria, que interceda por nós junto do Senhor Jesus ressuscitado e nos conceda a graça de O encontrarmos nos acontecimentos do dia a dia.

Diácono António Figueiredo

TOMÉ NÃO ESTAVA COM ELES

Meditando a Liturgia da Palavra do II Domingo da Páscoa

A paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja connosco, neste Domingo em que celebramos a Misericórdia Divina. 

A Liturgia da Palavra deste segundo Domingo da Páscoa leva-nos a reflectir sobre a perseverança da nossa fé nessa misericórdia.

A Igreja é comunidade de Fé. Somos um povo de crentes, reunidos em volta do Senhor ressuscitado. Viemos do cativeiro e desertos, ao encontro de Alguém que está vivo. A Ressurreição é o fundamento da nossa fé. “Se Cristo não ressuscito, vazia é a nossa pregação, vazia é também a vossa fé”. (1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios 15, 14). Estava o Evangelho suspenso à espera desta hora. Cristo ressuscitou como prova e garantia de quem era e da verdade que ensinara. 

A primeira leitura é dos Actos dos Apóstolos 5, 12-16. A nascente comunidade cristã era constituída por pessoas que viviam unidas pelos mesmos sentimentos, eram estimadas, muito admiradas e por isso exerciam forte atracção nos que com eles contactavam. Isto originava que muitas outras pessoas se tornassem discípulas de Cristo. 

O Salmo Responsorial é do salmo 117 (118). Neste salmo declaramos que o Senhor é bom e a referência à pedra rejeitada, que se tornou pedra angular, faz-nos recordar a Paixão e a Ressurreição de Jesus, fundamento da nossa fé na misericórdia divina.

A segunda leitura é tirada do Livro do Apocalipse 1. 9-11a.12-13.17-19. Para compreender esta leitura, estejamos atentos ao seguinte: o Filho do homem é o Senhor ressuscitado, fonte de misericórdia; a veste comprida do sacerdote indica que Jesus é agora o único sacerdote; a faixa dourada à cintura é o símbolo da sua realeza; os sete castiçais indicam a totalidade das comunidades cristãs. 

O Evangelho é de S. João 20, 19-31. A evidênia possui a prova irrefutável de um facto. A felicidade e alegria daqueles que acreditam sem terem visto é a fé realmente pura. “Jesus veio colocar-se no meio deles” – refere o Evangelho. Foi para isto que Ele ressuscitou. À Sua volta se congregam os discípulos, formando a Igreja, o novo povo de Deus, convocado pelo anúncio da Sua Ressurreição. A Igreja é a convocação pascal, a assembleia festiva, que torna presente e celebra Cristo ressuscitado e proclama a nossa própria ressurreição. Foi o prémio e dom do Pai pela vitória de seu Filho. Somos um povo de ressuscitados, o perpétuo memorial da Páscoa do Senhor.

A Igreja é Cristo ressuscitado, em aparição permanente. Através do disfarce de fragilidades e estruturas, torna Cristo presente pelos caminhos dos homens. Cristo e a Igreja fazem um só com o Pai, na unidade do Espírito Santo. No mistério da Igreja, Cristo aparece e desaparece nas suas limitações e disfarces de peregrina. Vive nela, mesmo que a tempestade se levante e se lhe fechem todas as portas. A verdade e o amor não têm prisões nem cadeias. Quando de fora se erguerem muros e dentro surgirem tensões, a glória do Senhor não tarda. “A paz esteja convosco”.

“Tomé não estava com eles” – salienta o Evangelho. Por isso não acreditou. A fé nasce do facto da Ressurreição de Jesus, presente e vivo entre os irmãos. Consiste em viver como Jesus vive, estar onde Ele está. Estar com Ele quer dizer estar com a Igreja em comunhão, acreditar no que Pedro acredita. Para acreditar tenho de tocar Cristo e entrar em relação íntima e pessoal com Ele. Mas há ausências que impedem, orgulhos e recusas que resistem. Quem quiser reconhecer Cristo, tem de tocar-Lhe as chagas. Tocar a dor é ver mais longe, aceitar os caminhos por onde Ele vem. Fé é tocar o amor e cair de joelhos: “Meu Senhor e meu Deus”. 

“Felizes os que acreditam” – diz Jesus no Evangelho. A perfeita felicidade veio-nos com Jesus ressuscitado, saltando muros, abrindo portas. “A fé é a vitória que vence o mundo”, o triunfo da dor e da morte. Para ser feliz é preciso acreditar na Felicidade, que é Jesus. Os crentes encarnam as testemunhas fiéis da alegria do Senhor. Levam na própria vida, como em escritura sagrada, a alegre notícia de Jesus ressuscitado. Só aquele que tocar Jesus pode anunciar a palavra da vida e ser argumento para aqueles que não viram.

O cristão testemunha na vida e nas obras a felicidade de acreditar. “Que os homens Me vejam e toquem e caiam de joelhos”: “Jesus, eu confio em Vós”.

A Virgem Maria, Mãe de Misericórdia, nos ajude a viver neste jubiloso tempo pascal na alegria e na Paz do Senhor Jesus ressuscitado.

Diácono António Figueiredo

A BOA NOVA

Meditando a Liturgia da Palavra da Santa Missa do Domingo de Páscoa

Celebramos hoje a Páscoa da Ressurreição do Senhor, a celebração litúrgica donde nasceram todas as outras. A Ressurreição do Senhor era o grande sinal, a grande expectativa. Já era o terceiro dia, já os insensatos e lentos de coração se cansam de esperar. Chegou a hora. “A paz esteja convosco”. E se não é verdade? E se temos de esperar por outro? “Sou Eu! Não temais!” – sossega-nos Jesus.

A Páscoa cristã é a Festa. Todos fomos convidados para o banquete, vindos de longe, por caminhos de graça. Páscoa é a festa da divina economia, onde as dívidas se pagam a preço de sangue. Páscoa é a festa do amor crucificado que dá a vida por amor. Páscoa é a festa da alegria, posse de nova terra, comunhão de novas gentes.

A primeira leitura é dos Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43. Em casa do centurião Cornélio, na cidade de Cesareira à beira mar, Simão Pedro, onde foi enviado pelo Espírito Santo, dá um vibrante testemunho sobre a Ressurreição de Jesus.

O Espírito Santo convida-nos, pelo Salmo Responsorial (Salmo 117 (118) 1-2.16ab-17.22-23) a exultar de alegria pela Ressurreição do Senhor. Que a alegria e o canto deste salmo brote do mais íntimo do nosso coração como homenagem a Jesus ressuscitado.

Na segunda leitura, da 1ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios 5, 6b-8, somos convidados a uma grande pureza de vida, digna de quem segue a Cristo ressuscitado.

O Evangelho desta solenidade é de S. João 20, 1-9. S. João começa com a verificação do túmulo vazio, feita por Maria Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

A Ressurreição de Jesus é mistério difícil, que só na fé se aceita, envolta em sinais. Uma pedra revolvida nos atrai, faixas abandonadas nos interrogam. Jardineiro no horto, caminhante de Emaús, pescador no lago, são os disfarces da fé em que Cristo se esconde para O podermos ver e tocar. O Cristo ressuscitado é o Cristo da fé, inaugurando a ordem nova e o estilo novo das suas relações pessoais. “Não me detenhas” – Evangelho de S. João 20, 17. Há um véu novo, que se interpõe entre nós e Ele, véu de graça e de verdade. O antigo rasgou-se. Por isso os discípulos duvidam sempre. Ninguém se escandalize. Também uma dúvida pode ser amor. “Não ardia o nosso coração?” .- Evangelho de S. Lucas 24,32.

A Ressurreição é mistério de paz e alegria. “A paz esteja convosco”. Há um mistério de gozo a envolver os discípulos, presença visível e fruto do Espírito Santo. O Espírito do Pai e do Filho foi o presente pascal de Cristo à sua Igreja, o dom que nos trouxe do Pai. – Evangelho de S. João 20,22. Paz e alegria são o novo estilo de viver, aprendido no Senhor ressuscitado. A alegria nasce da cruz. Supõe renúncias e subidas, varrer a casa primeiro. Vive do outro lado do sofrimento, à margem de ruídos, desabrochando em sorrisos e optimismo cristão. A alegria é o rosto de Deus que ficou enhtre os homens. A Ressurreição é mistério de amor. Ardem os corações em pressa de comunicar-se. Tudo acontece a correr naquele dia de Páscoa. Correm as mulheres e os discípuos a levar aos outros a Boa Nova, corre Cristo ressuscitado, amando e consolando. É o amor que nos ressuscita e liberta. A grande pressa é amar.

Páscoa é a alegre notícia do amor partilhado. “Vai dizer a meus irmãos”. – Evangelho de S. João 20,17. Quando eu amo o meu irmão, há sempre um túmulo que se abre, um coração que revive. O mistério pascal envia-nos ao mundo em ressurreição permanente. No gesto de partilhar é que eu e os outros O podemos reconhecer. Os discípulos de Emaús só reconheceram o Senhor, quando repartiram com Ele o seu pão. Os irmãos são o caminho mais certo e mais curto, por onde Cristo nos aparece. A graça pascal está em dar gozo aos meus irmãos, fazer os outros felizes. É ofício de consolar que aprendemos de Cristo. Serei anjo de consolação na medida em que for, na medida em que me der. Com Maria, alegremo-nos na Ressurreição de Jesus e procuremos imitá-l’O.

O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia! Aleluia!

Diácono António Figueiredo